domingo, 3 de abril de 2016


OPERAÇÃO JACKIE COOGAN (CONTO DE FERNANDO FARIAS)

Fernando Farias/Foto: Arquivo DCP



Dia ruim sem mortes. Nada a fazer além de ver filmes. Esta é a vida de repórter das madrugadas nos hospitais a espera de uma boa notícia de acidentes, crimes e mortes. Os índices de violência estão caindo. Nem sequer um estupro aconteceu.

Na tela o garoto vai à frente jogando pedras nas janelas. Em seguida, um vidraceiro troca o vidro quebrado da moradora revoltada.  Na próxima cena o garoto e o vagabundo almoçam felizes.

Lembro da madrugada que vi este filme do Charles Chaplin. O garoto do filme era o ator Jackie Coogan que anos depois veio fazer o gordo e careca Tio Funéreo, da Família Addams. Uma metáfora entre o belo e o feio na vida deste ator.

Acendi mais um cigarro e meditei. Uns quebram, outros consertam. Coisas da vida. Laboratórios criam vírus que contaminam milhões e depois vendem vacinas. Os vigilantes que matam e roubam criam um clima de insegurança nos bairros, para depois vender a ilusão da segurança noturna aos moradores.

Se eu fosse dono de uma casa funerária, mataria cinco pessoas por dia para vender os caixões e as flores para as famílias. Mas eu não sou assim. Não sou psicopata que mataria pessoas apenas para relatar grandes notícias no jornal da manhã. Eu não faria algo assim só para me tornar o repórter mais famoso da cidade.  Aquele que teria sempre notícias exclusivas.

Iniciei a Operação Jackie Coogan na madrugada da segunda-feira. Após mais um final de semana de poucas ocorrências policiais.  Comprei a gasolina, uma toalha e os fósforos. Pensei em deixar de fumar.

Fui o único repórter a noticiar as mortes dos mendigos queimados. Seguiram-se os incêndios. Todas as manhãs eu noticiava mais assassinatos daquele que chamei de maníaco incendiário. A audiência e os patrocinadores aumentavam. Melhorou meu salário, minha foto nas capas de revistas de celebridades.

A polícia acuada e sem pistas do maníaco que continuava provocando incêndios em prostíbulos, creches nas favelas, em camas de hospitais de bichas aidéticas. Mas eram apenas mortes de parasitas sociais, noticias que emocionavam e logo esquecidas.

Comprei um apartamento no bairro nobre, um carro importado. Milhões de pessoas me esperavam todas as manhãs com novas e espetaculares mortes de corpos assados.

Na noite do domingo, com dois galões de gasolina no carro, esperei a madrugada chegar à frente do asilo de velhinhos. Acendi meu último cigarro e cochilei.

A explosão do carro em chamas acordou a cidade. Repórteres anunciavam mais um crime do maníaco.

Eu devia ter deixado de fumar.



Um comentário:

  1. Muito bom. Execução de ações para alto benefício as custas de outras pessoas, também pode retornar como algo ruim para sí, em algum momento.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima