domingo, 18 de outubro de 2015


A POESIA DE MIRÓ*



Miró / Foto: divulgação



ALGUNS DESERTOS

alguns desertos
não precisam de camelos
alguns desertos
não precisam de um copo d’água
precisam de abraços
e a saliva de um beijo
alguns desertos
não ter força
nem de abrir a porta
mesmo com a chave na mão
alguns desertos
nem portas têm


NOITE

noite
os vagalumes acordam
na escuridão dos desertos
os que bebem sentam nos bares
escondem suas dores
e se alegram descobrindo
que um dia não é suficiente
para ser feliz


O DIA DE ONTEM DORME

o dia de ontem dorme
para nunca mais voltar
volto para a casa
a chave denuncia a minha presença
no sofá jogo meus problemas
bem que dava pra comprar
uma máquina de lavar
e ficar limpo no Serasa


*Poemas do livro aDeus, edições Mariposa Cartoneira, 3ª edição, 2015.




*João Flávio Cordeiro da Silva, Miró, é poeta e nasceu em 1960 no Recife. Morou por muitos anos no bairro da Muribeca, Jaboatão dos Guararapes, PE. Publicou diversos livros de forma independente com a colaboração dos amigos, entre eles, Quem descobriu o azul anil? (1985), Ilusão de ética (1987), Para não dizer que não falei de flúor (2004) e DizCriação (Andararte 2012) e Miró até agora (Interpoética/Fundarpe, 2013), uma coletânea de todos os seus livros.



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