domingo, 2 de agosto de 2015


O SENHOR AGORA VAI MUDAR DE CORPO – UM BREVE COMENTÁRIO

por Frederico Spencer*



Img capa: Divulgação



O filósofo Martin Heidegger dedicou toda sua vida em busca de uma teoria que libertasse o homem da metafísica clássica, da dualidade (corpo/alma, interior/exterior) que o aprisionava.

Com a proposta da “metafísica da subjetividade” cria um novo modo de pensar a existência - a filosofia voltada para o SER (ontologia) inaugurada no seu livro: Zein und Zeith (Ser e Tempo, 1927), onde apresenta um novo caminho para pensarmos a realidade: o “Ser-no-mundo é o lugar do homem, o mundo é a morada do homem”, e ainda mais: o ser do homem é um "ser que caminha para a morte" e a relação deste ser com o mundo concretiza-se a partir dos conceitos de sua angústia, conhecimento e complexo de culpa.

Em seu questionamento clássico: “Por que há algo no lugar do nada?”, Heidegger busca os conceitos do , como o lugar do SER e do algo, como o lugar do ENTE (objeto, coisa), criando um papel de relevância para a linguagem e o papel desempenhado por esta na psicanálise, em sua “metafísica da subjetividade”. 

No Livro “O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo”, Carrero, longe das fórmulas pasteurizadas da linguagem atual alcança o interior das palavras subjetivando-as ao máximo, multiplicando seus significados, utilizando as metáforas, símbolos e imagens oriundas de um mundo subterrâneo de um tempo de recuperação, o qual foi jogado após o AVC sofrido para realçar seu pensamento - do SER em detrimento à objetificação da linguagem dicotomizada dos dias atuais, arduamente combatida por Heidegger.

Entre ficção e realidade, Carrero conduz o leitor a um mundo de regeneração da subjetividade humana a partir das trevas e da luz, das noites e dos dias mal vividos onde aranhas, metáforas noturnas de sua agonia, qual robôs indestrutíveis maquinam a morte presumida do homem que tem só metade do corpo para enfrentar um mundo de palhaços, pernas-de-pau e anões que pululam em sua janela mostrando que há um dia a ser vivido.

A partir da epígrafe “O corpo é a única certeza que nos acompanha desde o nascimento até a morte”, de Clarice Lispector e que abre o livro, o autor nos mostra a luta entre a “senso-percepção” desfocada de um corpo semimorto e um desencadear de pensamentos oriundos de uma mente fabril/literária que, tal qual um filme, quadro a quadro revela a contabilidade desses dias e que, só nos momentos de solidão total nos questiona, conforme o poeta Jaci Bezerra: “mas o tempo, indiferente aos necrológios,/boceja gordo de tédio nos relógios,/esculpindo com o barro de quem foi/a memória de quem virá depois./...A hora em que, severo, o coração/do homem é o seu próprio tabelião”.

Assim é - O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo - imagens de um subterrâneo, escritas nos lapsos da luz que irrompem pelas frestas de uma janela, para um final seguindo o Escritor pelas ruas do bairro da Boa Vista, rumo ao Capibaribe: “La nave naufraga naquelas águas nojentas, la nave segue os segredos das sombras severas e sujas. La nave... Quem poderá salvá-lo? La nave salvará o Escritor das sombras severas, sujas. Salvará?”. 

Desta forma, através da busca dos conteúdos mais profundos das palavras, trazendo um novo sentido para a vida, o Escritor salva-se salvando o Recife da dor que é perecer no lodo das noites e das linhas mal vividas. La nave segue, transmutada.



*Frederico Spencer é sociólogo, psicopedagogo, poeta, escritor e membro da Academia de Letras de Jaboatão dos Guararapes.



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