domingo, 16 de agosto de 2015


CONTO DO DOMINGO

Dremelgas (conto)* de Fernando Farias

Fernando Farias / Foto: Divulgação


Na regressão de memória, estou caminhando num grande deserto de pedras, os pés descalços e vestindo uma túnica amarela.  O céu coberto de turva fumaça de enxofre. Nas fendas abertas brotam um vapor quente. Vulcões, gêiseres e o magma vermelho borbulhante.

Não tenho consciência de quem eu sou, nem meu nome, nem onde estou. Apenas sei que estou sozinho. Sinto angústia no imenso vazio de rochas efervescentes. Vou caminhando entre explosões de vapor até encontrar uma Dremelga.

Dremelgas são as enormes plantas carnívoras, oriundas do planeta Júpiter. São verdes escuras, mas suas folhas ficam prateadas à luz do luar. É quando brotam as flores que parecem com vaga-lumes coloridos. O perfume que exalam, sempre ao alvorecer, é frio e adocicado.

Não sei nada sobre mim, mas caminho admirando as Dremelgas. Sei tudo sobre elas. As sementes são pequenas serpentes aladas, que são expelidas ao alto, que penetram na terra gerando novas plantas.

Tenho medo de me aproximar. Sei que elas devoram suas vítimas lentamente, com uma gosma ácida. Esta deve ser a última das Dremelgas, pois estão extintas. Elas são como você.  Devoram-se umas às outras, depois choram e reclamam da solidão.

Quando retornei à consciência, melancólico, dentro do trem, fiquei sem saber se aquelas imagens eram de uma vida passada, quando eu era apenas uma ameba vulcânica, ou se tudo não passou de imagens aleatórias, uma caricatura, de uma alma. 

Afinal, Dremelgas é um pouco de tudo, do nada que existe em você.



*Transcrito do livro ‘O ovo cósmico’, Edições Sabátika, 2015. 



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