domingo, 19 de julho de 2015


POETA DO DOMINGO

A POESIA (VIVA) DE DÉBORAH BRENNAND*


Déborah Brennand
Foto: Divulgação




Dois poemas de Deborah Brennand



ANJO DA NOITE

“Dá-me a ilha de Samos como brinde de noivado”
Bengierd

E sendo o ser todo ser
eu, vetusta ou jovem lusa,
dei o meu olhar de claridade
à vastidão única das brumas
e só no coração uma saudade
era de havidos campos,
campos quase não vistos,
ó enamorado de minha formosura.

Sombria ou ruiva foi a cabeleira
o pouso da coroa em garras.
Abutre no alvor da minha fronte
cravando unhas de diamantes
assim em disse que as mulheres
não deviam usar trajes escarlates.
Talvez dez dias e oito noites passassem
nas distantes florestas de Lorvão.

E o meu reino era cinzento em culpas,
o meu legado agouro e mal.
Ó enamorado da minha póstuma formosura,
por que de mim tão pouco sabes?



NÃO É CRIME

O degredo das flores
da umidade da mata
para uma varanda acesa
em arcos verdes

É permitido.

Atar os ramos em sombras?
e desatá-los na colina
ou varrer as cinzas de fogueiras
Na clara tarde de março

Ainda, ainda

Mas aquele pássaro voltando
querendo entrar na gaiola
já do lado de fora, do lado das rosas
é uma afronta às nuvens e à brisa.

Assim, matá-lo não é
Crime.



*Deborah Brennand nasceu em 12 de fevereiro de 1927, no Engenho Lagoa do Ramo, Nazaré da Mata. Ao completar 80 anos, assumiu uma cadeira na Academia Pernambucana de Letras. Faleceu aos 88 anos, vítima de falência múltipla de órgãos, mas deixa para seus amigos e admiradores uma poesia viva e pulsante.



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