domingo, 19 de julho de 2015


CONTO DO DOMINGO


Lembrança de Augusta (conto) de Fernando Spencer*

(Homenagem à minha mãe e à Rua Augusta em que nasci, no bairro de São José, num janeiro de um ano qualquer)

Fernando Spencer/Foto: Reprodução



Caminha na madrugada fria e sonolenta. Choveu há pouco. No asfalto, a marca. De longe, os reflexos dos luminosos no chão.

Seu caminhar é lento, como as ideias que emergem neste trottoir invernal. Busca nesses passos lentos, o reencontro que até hoje não ocorreu.

Faz tanto tempo que desejava revê-la.

Gostaria de invadir suas entranhas e aninhar-se outra vez, como da primeira, no seu útero, num certo janeiro.

Queria sentir o cheiro bom, como agora, neste sopro que vem, mas não sabe de onde.

Os passos são lentos, como um cavaleiro medieval furando o tempo com sua lança.
Aqui e ali, um boêmio, ébrio comum, tentando equilibrar-se, tocando nas paredes frias.

Do outro lado, um casal que ainda não se desfez do encontro, depois de gozar na noite, desejos e promessas de ontem.

Numa esquina, um botequim que vai fechar as portas.

Nélson Gonçalves no ar!

O homem dobra a primeira rua. Já está fora da comprida Avenida do General. Se alguém perguntasse o que procurava na madrugada, diria apenas:

- Vou ver Augusta. Quero reencontrar-me com o ontem nesta noite de agora.

Quero acordá-la de sua paz com o meu grito, como antigamente, da varanda, nos seus braços maternais.

Gostaria que neste momento ela ouvisse o primeiro choro, como naquela tarde de um verão-janeiro que vai bem longe. O choro que libertaria as dolorosas agonias do nascer-menino.

Entra em outra rua, mas só o leva à grande Avenida do General Dantas Barreto.

Está perdido ou perdeu Augusta?

Tenta gritar. Mas Augusta nada responde. Tudo é silêncio.

- Augusta! Augusta!

Baixinho, lá dentro soa ao seu ouvido:

Augusta? Ela morreu faz muito tempo. A cidade cresceu e sufocou Augusta. O General renasceu e Lucena sepultou Augusta.
  


*Fernando Spencer é cineasta e foi por 40 anos editor de cinema e música do Diario de Pernambuco. Foi diretor da Cinemateca da Fundação Joaquim Nabuco, escreveu poemas e contos para vários jornais do país e foi premiado nacionalmente e internacionalmente. É patrimônio vivo da cultura de Pernambuco. 



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima