domingo, 21 de junho de 2015


CONTO DO DOMINGO

Bom mesmo é no inferno? (conto) Paulo Caldas


Paulo Caldas/Foto: Reprodução


Quanto mais corria, menor a coragem de olhar para trás. O suor nascia no pescoço, escapava pelas costas, suor frio, suor de temor, grito preso na goela, grito de pavor reprimido.

O barulho da respiração, princípio mal percebido, crescia, crescia, mais audível a cada passada, a cada passada mais próxim
o, bem junto, juntinho.
O chão das calçadas umedecido pelo sereno, aqui e ali refletia a luz opaca de uma lua preguiçosa, luz aqui e ali atrapalhada pelas sombras das árvores tocadas pela brisa e pelo desarrumar das nuvens.

Cornélio pare, pare, estou cansado, espere, espere um pouco, vai se lembrar de mim.

- Não quero, nem vejo seu rosto, só essa voz escura, rouca. Não me lembro de você.

- Schuller, Carlos Schuller, mas na escola você me chamava de gordo. Pois bem, preste a atenção: cresci, fiquei magro, famoso ator de televisão e tive um caso com sua mulher.

Preste mais atenção agora. Tô aperreado, pois morri faz dois meses e o satanás disse que só me libera da castração se eu viesse aqui pedir desculpa a você. Vai, me desculpa, vai, por favor, lá tem cada rapariga arretada e ele não me deixar nem me aproximar delas, vai cara, desculpa ai, por favor, vai.



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima