domingo, 19 de abril de 2015


CONTO DO DOMINGO

Visita íntima (conto) de Abigail Souza



Abigail Souza é da Academia
de Letras do Cabo e Jaboatão
  

A fama do cara corria mundo. A habilidade para roubar galinhas começara cedo. Após dez anos no duro e arriscado ofício, recebia encomendas - as mais variadas: roubava galinhas gordas, pintos e galos de briga famosos. Pedia resgates caros. O vício não o deixava em paz desde o primeiro furto, aos dezesseis anos. Nunca mais comprou frango em açougues, nunca mesmo!

         Naquele dia fatídico, data do seu aniversário, foi preso em flagrante. Desceu para o Complexo Prisional do Curado, após ter experimentado uma diária no Cotel.

         Um, dois, três, quatro dias sem falar com ninguém. Aos poucos, ouvia daqui e dali uma conversa. Falavam sobre uma mulher – uma tal de “Tereza”. Alguém que contemplaria a todos os solteiros!
 
         A curiosidade lhe aguçou os ouvidos. Não parava de pensar em “Tereza”. Será que é bela e devotada aos prazeres carnais? Uma fêmea avassaladora? Ou será que é feia e sem atrativos para aplacar um pouco a carência de tantos apenados, numa visita íntima?

         Sexta-feira. Rosto barbeado, cabelos cortados, banho tomado. O circo estava armado desde a primeira vez que ouvira falar da benfeitora.
Casados de um lado, solteiros do outro, próximos ao portão principal. Sentavam em bancos de cimento, numa fila quase indiana, aguardando a vez. Como era o último, relaxou inteiro aguardando seu momento, num tempo que não passava.

Lá dentro, lençóis pendurados dividiam a cela em quatro ambientes.
Casais se viravam nos trinta, nos vinte minutos a que tinham direito. Zumbidos, sussurros, gemidos e urros - de tudo se ouvia - não havia tempo a perder.

De repente, mãos finas e quentes enlaçaram seu tronco.
Numa busca louca encontra o seu troféu. Uma boca carnuda beija-lhe sofregamente. Pernas se escancham sobre seu ventre. Era ela – maravilhosa, terna, louca. “Tereza” estava ali – totalmente sua, nua e em pleno gozo...
Alguém toca seu ombro desajeitadamente. Era o guarda chamando a todos no toque de recolher. Atônito ele olha ao redor: Cadê “Tereza”?


Seu companheiro de cela ri e explica finalmente: vamos pra cela, lá eu te mostro. Por traz de um cartaz na parede, ele mostra a “Tereza” – uma corda feita com lençóis usada pelos presos para descerem as muralhas do presídio. 



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima