domingo, 12 de abril de 2015


CONTO DO DOMINGO

A casa dos sete gatinhos (conto) de Fernando Farias


  
Foto: reprodução


   Quem passa de carro na avenida apresada apenas percebe o muro coberto de cartazes acumulados de várias eleições. As mangueiras escondem da paisagem a velha casa abandonada. Arquitetura típica da década de 60, linhas inclinadas e cobertas de azulejos verdes e amarelos desbotados pelo tempo. Na varanda, cadeiras de bambus apodreceram.

         O que era antes um jardim é um matagal que cobre até o portão com ramas de trepadeiras. O quintal é uma selva fechada pelas goiabeiras entrelaçadas. Um habitat de lagartixas pretas, que servem de alimentos para os gatos que entram e saem da casa através das molduras dos vidros quebrados dos postigos das janelas.

         Coberta por telhas inglesas, a maioria rachada e escurecida, por onde as goteiras e os raios do sol penetram pelas paredes sujas até o piso; assoalhos de tacos de madeira, revestidos de poeira, folhas secas e fezes dos gatos.

         A ninhada que nasceu no sofá azul e mofado, brinca com as bolinhas de gude coloridas, encurraladas entre as paredes cobertas de fotografias e imagens de santos que o ar desbotou.

         Os gatinhos saltitantes brincam fazendo as bolinhas rolarem se espalhando pela sala, corredor, até o banheiro de louças encardidas pela ferrugem; a cozinha destruída pela maresia e um quarto coberto pela umidade da salina e o lodo ressecado, a poeira cobre o espelho da penteadeira.

         A bolinha azul rola até o guarda-roupa com as portas abertas. De um lado, as calças de tergal e camisas mofadas de homem, do outro, um tubo de batom e pequenas teias de aranhas.

         Ao canto, em cima de uma mesinha coberta com paninho de renda de crochê encardido, há um bilhete rabiscado a lápis, numa folha rasgada de um caderno, onde, ainda, se pode ler:

         “Querida, eu te amo! Eu sei que você vai voltar. Me acorde quando chegar.”

         Apesar da brincadeira barulhenta dos gatinhos, a mamãe-gata dorme tranquilamente na cama, aos pés de um esqueleto humano coberto com um lençol de algodão.

         No piso do quarto, a réstia do sol desliza silenciosamente.


*Transcrito do livreto Entre sete estrelas / Coleção “O livro azul” 

 
*Fernando Farias é escritor e contista pernambucano. Coordena atualmente o projeto “Um escritor na minha escola”, em Jaboatão dos Guararapes.







4 comentários:

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