domingo, 1 de fevereiro de 2015


POEMAS VENCEDORES DO IV PRÊMIO SOLANO TRINDADE DE POESIA AFRO-BRASILEIRA


Foto: arquivo DCP
Vencedores do IV Prêmio Solano Trindade de Poesia
Da esquerda para a direita: Lucas José (3º lugar),
Jailson Leonardo (1º lugar) e Mariane Bigio (2º lugar)




1º LUGAR

O SALANUS DE FAUSTINA
Jailson Leonardo (Recife)

Faustina acorda cedo todo dia
E embora cheia de reclamações
Não esmorece.

Tece a dor de ter que dar conta
Dos filhos e netos
Com os quais divide o mesmo teto,
Antes, de capim coberto.
Também divide o pão,
O café com farinha, a sopa
E sabe lá quais esperanças perdidas ou encontradas

A cada dia
Entrega um corpo, aparentemente livre,
às “casas de família”.
Lá, não há máquinas.
É no suor e no braço que tem de lavar todas as tralhas.
Os tecidos, as roupas e todas sãs capas,
Dessa sociedade escravocrata.

Não sei se o que falara tinha algo
Do que dizem ser consciência de classe, de povo, de operária.
Como bem gostam de dizer que têm todas essas academias
Tão cheias de hipocrisia, e arbitrárias...
Não sei se havia essa azia.
Sei que Faustina era orgânica
E havia muita ciência no que dizia.

Quando se despedia falava:
“estudem meus filhos, estudem!”
E ia.
E a gente agradecia e comemorava aos domingos
Cada semana de sobrevivência,
Comendo galinha guisada,
Por que ao menos naquela época era a carne mais barata
E mais fácil de ser partilhada.

Agora, depois de formada me pergunto
Quem foram mesmo os mestres?
Então SOLANO me dizia
Do saber mais sagrado ou profano:
A água, o sabão, os cortes, eram mesmo os açoites?
O chefe, o imediato, era na verdade um capitão do mato?
O dono das casas de tão ferrenho era na verdade um senhor de engenho?
E as “CASAS DE FAMÍLIA” de tão excludentes e exuberantes eram na
verdade senzalas? Ou eram na verdade casas grande?

Não sei. Não sei. Não sei.

Sei que de alguma forma e em algum lugar
Ela deve estar a me olhar...
Eu já formado e agora quase doutor...
Mas com o sangue nas veias misturados a sua luta,
Sua água, sua dor e seu suor.
Que tão misticamente soube transformar,
Nesse mundo tão ingrato
Inclusive em novo cheiro.
Meu povo não se iluda.
Faustina eu sou teu legado.
Eu sou o teu neto negro.


2º LUGAR

CORDEL DA INSPIRAÇÃO CIGANA
Mariane Bigio (Recife)

Eu estava num deserto
Só que era feito de mar
Água por todos os lados:
Eu não sabia nadar.
Perdida sem nenhum norte
Talvez pelo medo da morte
Comecei a delirar

Avistei longe na praia
Uma miragem, de certo
Algo que jamais se viu
Caminhando ali por perto
Um tilintar de colares
Alfazema pelos ares
No calor do sol aberto

Tomou forma de mulher
De olhos bem amendoados
E as ondas que beijavam
Os seus pés, então molhados
Regressavam com vergonha
Pelos dedos “ingilhados”

As curvas do corpo esguio
Sob véus se insinuava
E o vestido esvoaçante
Rente ao corpo se encostava
Graças à leve brisa
Que de maneira precisa
Com os tecidos desenhava

Cortando as águas salgadas
A beldade me alcançou
Pensei em pedir-lhe ajuda
Mas algo me enfeitiçou
Encurvou-se, mendicante
E o seu braço estirou

Era como uma cigana
Mas mostrou-me a sua mão
E quem julga aqui, se engana
E recorre à ilusão
As linhas de minha palma
Os segredos de minha alma
A ela pouco serviam
Com sua mão estendida
Com a face enternecida
Eis o que meus olhos liam:

Num piscar de ligeireza
A moça se transformou
Não mais véus e sim farrapos
O seu corpo definhou
Cabelo descolorido
O semblante deprimido
E a voz rouca murmurou

“Os destinos que vislumbro
Tudo aquilo que já li
Cada mão que já toquei
Tudo isso eu perdi
Não existem mais mistérios
Há no mundo um revertério
A descrença mora aqui!

Há quem tape seus ouvidos
Há que não estenda à mão
Com braços entrecruzados
As pessoas dizem “não”
Como vou sobreviver?
O que mais posso fazer
Para manter-me na missão?”

E de súbito senti
Uma enorme compaixão
Como se aquela velha
Tocasse o meu coração
Seu penar em mim doía
Minha alma revolvia
Procurando solução

Foi quando noutro piscar
Eu gritei: eu acredito
E logo o seu cabelo
Foi ficando mais bonito
E de novo, outra vez
Eu lhes disse: acredito!

Eu não vi explicação
Nas palavras que eu dizia
Como se entoasse um mantra
Eu apenas repetia
A mulher que definhara
Logo rejuvenecia

Acredito, acredito!
E uma lágrima caiu
Se foi minha, se foi dela
Não se sabe, não se viu
Como era também salgada
Pela maré foi tragada
E a mulher também sumiu

Eu acordei do meu sonho
E ainda estava no mar
Só que não mais a deriva
Recomecei a remar
Não conheço a fundo o rumo
Mas de quando em quando aprumo
Para nunca naufragar

Ainda que contra a corrente
Eu precise navegar
Continuarei andarilha
Com histórias pra contar
Feito uma moça cigana
Que nunca se desengana
Se houver quem acreditar!


3º LUGAR

MULHER-VENTO
Lucas José (Recife)

Sou filha do vento
E ele quando em mim toca
Movimento...

Deito no alento da tua ventania e encorajo meu corpo até te alcançar
Oiá da minha vida
Vida vendaval de mundos...

Nos encontraremos em redemoinhos de folhas caídas
E entre sorrisos veremos uma à outra
O olhar-vida de cada uma
Nossos corpos como deusas
Eu te dando as mãos e tu me seguindo.
ÉÉÉ, Pa-RRe-Oiá



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