domingo, 15 de fevereiro de 2015


É CARNAVAL!

Nesta edição especial de carnaval o DCP entra na folia com poesia e convida você a brincar em nosso bloco.
Com muita alegria festejamos a crônica do escritor e jornalista Cícero Belmar (Memórias de um ex-folião) e o conto do escritor Fernando Farias (Fantasia manchada de batom carmim), além dos poemas de carnaval de Cecília Meireles, Menotti del Picchia, Carlos Pena Filho, Natanael Lima Jr e Frederico Spencer.

Um feliz e poético carnaval a tod@s.

Os editores




Memórias de um ex-folião
por Cícero Belmar*


Como é que uma criatura que mora no Recife ou em Olinda não gosta de Carnaval? Tem que gostar. Tem que ter disposição para correr atrás de bloco, saber fazer a tesoura do frevo, dar aula sobre a diferença de maracatu de baque solto para o outro, que é virado; ter na ponta da língua as letras das músicas de Capiba; e finalmente achar lindo  o dia amanhecer com violões e pastorinhas mil. Que é para rimar com o Carnaval melhor do meu Brasil.

Todas as vezes que alguém me pergunta se eu gosto de Carnaval, fico sem saber o que dizer. Um negócio complicado de definir. É uma festa bonita, de muita alegria. É muita espontaneidade; todo mundo sai dos andores e pisa no chão; é a celebração da igualdade e da liberdade. Da fraternidade, nem tanto, é melhor deixar esse item para a quarta-feira de cinzas em diante. Mas, por favor, também não me chamem para retiros espirituais. Sou do pecado. Sem escândalo.

Voltemos à questão original. Aí alguém vem e me pergunta. Eu fico naquela: gosto ou não gosto? Querendo ser fiel ao meu passado de folião, tenho que dizer que gosto. Frevo é lindo, maracatu é lindo, caboclinho é lindo. Quem vem do interior e ainda por cima é fantasioso que nem eu, já vem de lá com uma imagem na cabeça. Eu, por exemplo, jurava que o Recife tinha trilha sonora porque desde muito cedo a gente aprende – lá no interior - as letras dos frevos clássicos e vem para cá achando que tudo acaba em frevo.

Sendo assim, não tem como não se empolgar com as orquestras. O maracatu, que é bastante popular no interiorzão, mas não tanto quanto o frevo, eu só vim entender totalmente ao colocar os pés em terras maurícias. Quando a gente escuta o baque do maracatu pela primeira vez é um negócio que vai fundo na nossa herança nagô e vem aquela vontade de dançar. Parece até que todo mundo já sabe como balançar os braços e mover as pernas, pois o som das alfaias casa direitinho com o jeito de corpo que a gente dá.

Deixemos as reminiscências. Sem arrodeios, gosto ou não gosto?  Difícil... Quando eu era mais novo, portanto, se alguém me perguntasse, responderia na bucha: “Gosto não, como com farinha!”. A boêmia é quase uma característica profissional, sinto muito se lhe decepcionei. E ainda por cima tinha essa coisa forte da pernambucanidade somada a uns bagulhos argentinos super cheirosos que a gente adquiria a preços módicos para umedecer lenços. Como não gostar de uma coisa daquelas? Diga aí, gente, como não gostar?

Detalhes número dois. Excetuando os enfoques sociológicos e aquela coisa multicultural, Carnaval tem a coisa da paquera, todo mundo se permite, as coisas ficam muito mais fáceis... Duas doses a mais e bem... como se diz... é a esbórnia. É onde repito: como não gostar, gente?  Por isso mesmo o restante desse parágrafo não será lido porque existem detalhes que não vêm ao caso e é melhor ficar por conta da imaginação de cada pessoa que estiver lendo, até porque a gente termina bebendo cerveja demais, uma coisa e outra... Vamos parar. É ó-ti-mo.

Mas, vem a parte ruim. Detesto empurra-empurra, gente fedorenta, pisando no seu pé, cerveja quente vendida como sendo a última coca-cola do deserto. Não vejo mais graça nenhuma em sair pulando atrás de uma orquestra, subindo e descendo ladeira, até porque não tenho mais aquela resistência física. Alegria e medo convivem no mesmo espaço. O medo de ser assaltado, de pegar conjuntivite, hepatite, herpes, cárie, mononucleose, que é a doença do beijo. Aprendi que não existe nada mais anti-higiênico do que beijo na boca. No Carnaval, então, cruz credo. Logo eu, que adorava passar naquela rua de Olinda, onde todo mundo beija todo mundo. Pois até ela, hoje em dia, é preciso evitar.

Me diga qual é a graça que há num Carnaval desses. No Recife e em Olinda, as coisas ficam todas pela hora da morte.  Perca amor ao salário. Para comprar uma tapioca que seja é preciso desembolsar dez contos. Ora, francamente. Uma água mineral, cinco. Os vendedores de água pensam que estamos em São Paulo, em plena crise de abastecimento. Cinco reais por uma garrafa de água, sinceramente, é melhor beber um litro de gasolina, sai mais barato! Aí vem: tapa na cara de mão de boneco gigante; você não consegue dar um passo no Recife Antigo, de tão lotado...

Mas se você tem a graça de chegar aos polos de animação, as pernas, nessas alturas, estão tremendo de cansaço porque a resistência para atravessar a multidão foi um negócio para atleta. De exausto, a opção é sentar no meio-fio. Simplesmente não há lugar para um cristão se sentar dois minutos se estiver cansado. Então, dá vontade de ir para casa. Muita calma nessa hora. É preciso esperar uma eternidade para pegar um ônibus; o transporte público é uma pequena demonstração da porta do inferno de Dante. Se você quiser pegar táxi, vai ter que andar dez quilômetros para encontrar um.

Não se irrite, calma! Você está ali para... que mesmo?

Por isso, hoje em dia, não sei responder se gosto ou não de Carnaval. Será que eu gostava e aquela magia se desfez? Ou será que eu gostava por que era mais novo e agora não aguento muito repuxo? Tem tudo isso. O fato é que a festa continua maravilhosa e eu, como folião que já fui, não posso estar falando mal só porque os anos passaram. Uma coisa é certa: estou encontrando outras formas de ser feliz. Preservando o bom humor.


*Cícero Belmar é escritor e jornalista pernambucano



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima