domingo, 16 de novembro de 2014


POEMAS DA SEMANA

A poesia de terra de Manoel de Barros

Manoel de Barros (1916 – 2014)
Foto: Reprodução

  
Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) em 19 de dezembro de 1916, e viveu a maior parte de sua vida em Corumbá (MS), para transforma-se em advogado, fazendeiro e numa das maiores expressões da poesia brasileira. Faleceu no último dia 13 do corrente mês, deixando uma obra de mais de 30 livros de onde a natureza brotava através de versos de rara beleza, qual a terra que o cercava e o encantava para encantar a todos.

Escreveu seu primeiro livro aos 18 anos: “Nossa Senhora de Minha Escuridão” que não foi publicado. Fato pitoresco é que este livro o salvou de ser preso, havia feito uma pichação numa estátua da cidade: “Viva o comunismo!”, sendo descoberto pela polícia, o policial foi recebido pela dona da pensão que informou que ele havia escrito um livro, este pediu para ver o livro, ficou com a brochura e soltou o rapaz.

Seu primeiro livro foi publicado no Rio de Janeiro: “Poemas concebidos sem pecado”, com uma tiragem de vinte e um exemplares, os quais foram distribuídos para vinte amigos, sobrando um único exemplar para o autor.

O poeta recebeu vários prêmios como: o “Prêmio Orlando Dantas” em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras. Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal, em 1997 recebeu o Prêmio Nestlé, de âmbito nacional e em 1998, recebeu o Prêmio Cecília Meireles (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura e ganhou o Prêmio Jabuti por duas vezes, em 1990 e 2002.

Sobre sua obra, o poeta dizia: "Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo 'lugar de ser inútil'. Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações.

Os editores



Três poemas de Manoel de Barros


O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
 Meu quintal é maior do que o mundo.
 Sou um apanhador de desperdícios:
 Amo os restos
 como as boas moscas.
 Queria que a minha voz tivesse um formato
 de canto.
 Porque eu não sou da informática:
 eu sou da invencionática.
 Só uso a palavra para compor meus silêncios.



Tratado geral das grandezas do ínfimo

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
 Meu fado é o de não saber quase tudo.
 Sobre o nada eu tenho profundidades.
 Não tenho conexões com a realidade.
 Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
 Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
 Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
 Fiquei emocionado.
 Sou fraco para elogios.



Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.

A minha independência tem algemas.



Um comentário:

  1. Poemas da Semana poderia se transformar em um livro com a coletânea de todos os poemas publicado durante o ano e seu lançamento no mês janeiro.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima