domingo, 2 de novembro de 2014


POEMAS DA SEMANA

Poemas de Cláudio Aguiar, Domingos Alexandre, Frederico Spencer, Juareiz Correya e Natanael Lima Jr.



Sonho Solar
Cláudio Aguiar

A Miguel Elías Sánchez  Sánchez

Eu não conheço o sol,
clarão que humilha e me faz manso.
Só o conheço na sombra
que também mata e inocenta.

No lago interior, alma afogada,
afundei a matéria abismal do choro,
facho imenso entre o dia e a noite.
Oh, escuridão eterna,
quando serei raio
partindo do útero da terra?

Eu não conheço a luz temporal
que anda por sendeiros,
buscando as pisadas das estrelas,
gerando um som que me emudece.

Ainda que o meu tamanho se agigante,
não vejo nada além do infinito.
Talvez me ensine mais o sonho
que me alimenta e logo me destrói:
rotor preciso da imensidão,
refrão nefasto da pequenez humana.



Um lado da vida
Domingos Alexandre

Meus passos se perderam num tempo
Em que os muros não eram tão altos,
e de qualquer janela
podíamos ver a manhã
se abrindo sobre a cidade.
Um tempo em que as ruas
Eram tão longas e macias
que, nelas, podíamos correr,
sem tocar no chão,
até a fronteira dos ventos.
Um tempo em que a voz de minha mãe
chamando para o jantar
me alcançava, sem medo,
no mais fundo do meio
de qualquer floresta. 



A amargura
Frederico Spencer

Encontrei a amargura
no homem liso, no letrado
o seu ranço triste
devorando suas vísceras
na mesa de jantar, corações
ofertados, numa bandeja
músculos trêmulos
morrendo de medo
enquanto avança o dia
bebericam a última gota
de sangue.
Encontrei a amargura e ela
nos encontrou, rondando
os jazigos de nossa urbanização.



Cantiga ao redor do teu seio*
Juareiz Correya

teu seio cheio
assim tocá-lo
nuvem de dedos
a anestesiá-lo

teu seio rubro
hábil, manoplá-lo:
anseias de gestos
a amamentá-lo

teu seio amplo
em dádiva tê-lo
-cálice do corpo
Na boca inteiro

teu seio doce
-erógeno fruto
pulsátil, bebê-lo
com milhões de zelo

*poema transcrito do livro Americanto Amar América e Outros Poemas do Século 20



Criação
Natanael Lima Jr

A palavra cria mais
que crera, não creria
um simples gesto, faria
sangue e fogo.

A linguagem não
diria,
tudo mudaria
a ramagem do dia
colheria sal e fuligem
terra e pó.



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima