domingo, 23 de novembro de 2014


ESTÃO TODOS CEGOS OU DORMINDO*

por Raimundo Carrero

O romance de Fernando Monteiro realiza uma grande metáfora irônica

Fernando Monteiro
Foto: Divulgação

Uma metáfora que ironiza os escritores contemporâneos ou uma advertência severa e firme. Esta parece ser a advertência mais imediata do romance O livro de Corintha, do escritor Fernando Monteiro, vencedor do Prêmio Pernambuco de Literatura e publicado agora pela Cepe – Companhia Editora de Pernambuco -, escrito com um grande apuro técnico, com habilidade na criação de cenas e de cenários, além de cuidadosa elaboração de personagens. Basta lembrar que o nome Corintha é a metáfora do desenvolvimento das artes porque a região de Corinto representou o florescimento de áreas artísticas na Antiguidade e cujo povo deu nome aos Coríntios a quem São Paulo dirige cartas exemplares, conforme está na Bíblia. Tudo em oposição a Methódio, o escritor acadêmico metódico, meticuloso, gentil, de quem se espera uma obra conservadora e burocrática. Está aí a metáfora mais imediata de Fernando Monteiro. Se continuarmos com nossa literatura conservadora, emotiva e espontânea, estamos condenados a desaparecer. Os que estão dormindo ainda podem acordar, e os cegos continuarão cegos pelo resto da vida.

Assim é que o escritor chama a atenção para o fato de que a literatura é feita pelo cérebro e não pelo talento, vocação, inspiração ou intuito. É preciso investir na elaboração, no artesanato e na reflexão para construir uma obra capaz de atingir o leitor na sensibilidade e na estética. No campo da arte a emoção é estética porque o compromisso da literatura é com a beleza e não com a frivolidade de beijos e abraços. Isso é coisa para novela de TV. Pertence ao campo da diversão, do entretenimento, do passatempo. Parece verdadeiro que este é o compromisso do Livro de Corintha. Se é que a literatura tem algum compromisso, até mesmo com a beleza.

A palavra compromisso chama a atenção, em certo sentido, para o conteúdo, e o conteúdo não faz parte da literatura. Um dos motivos de preocupação com o regionalismo é justo fato de que o regionalismo é conteudístico, com destaque para a sociologia e a antropologia. Ou seja, a literatura deveria voltar-se para os costumes, um jeito de andar, um jeito de vestir, um jeito de viver, tudo com pouco ou nenhum compromisso com a estética, com o grau de beleza que deve ter, obrigatoriamente, toda obra de arte. É elementar.

Fernando Monteiro não é apenas um romancista por vocação. É um romancista porque estuda e aprende, porque tem uma visão mais ampla da literatura e das suas inúmeras vertentes. Daí porque estamos seguros de este Livro de Corintha é muito mais do que um romance. É um desses livros antecipadores, que nos jogam para o Alto e para o Belo, para a maravilha da arte, para o compromisso com a Beleza. Com a vantagem de que é um livro de leitura agradável, já não digo de leitura fácil como se costuma dizer por aí, mas um livro prazeroso pela linguagem, pela montagem, pelo desenvolvimento, pelos personagens.

Grandes autores usaram o enredo como elemento de sedução do leitor, mas o enredo funciona como uma espécie de rima no poema, engana e diverte mas não transforma o poema em obra de arte. Por isso é que Autran Dourado, um dos teóricos de maior importância, dizia que o enredo engana enquanto o autor rouba a carteira do leitor. No livro de Fernando, o autor significa dizer que em primeiro plano está a condição humana com seus conflitos e suas crises -, o que significa dizer que a Arte é o elemento superior que provoca a alma. Mas não lirismo e romantismo como é feito entre nós, mas com equilíbrio e competência.

O equilíbrio estético, afinal, é o que move a obra de arte desde Aristóteles. Só para não deixar de falar nele. Para o grego, a beleza é o resultado dos elementos internos em equilíbrio, embora o nosso tempo goste muito de desequilíbrio e desarmonias. No mais, Kant resolveu equacionar o assunto.

De propósito falei rápido em enredo porque enredo é coisa de passatempo, de diversão, de divertimento. Quem aposta em enredos lê E o vento levou ou acompanha novelas televisivas, que são fartamente oferecidas. Aqui temos diante de nós um romance que se lê com a certeza de que o autor conhece e domina a intimidade da narrativa. Na companhia de Corintha e de Methódio podemos descobrir os movimentos que levam, com certeza, à Grande Arte.


*Publicado no Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, nº 99 – Maio 2014 – www.suplementopernambuco.com.br



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