domingo, 28 de setembro de 2014


ENTREVISTA COM A EDITORA SALETE RÊGO BARROS

Salete R. Barros/Foto:divulgação

“O leitor pernambucano deve ser mais exigente, no que diz respeito à valorização dos autores da terra, abolindo de vez o chamado “complexo da casa-grande”, instituído desde a colonização”.


A editora Salete Rêgo Barros concede entrevista inédita ao DCP e fala sobre literatura, sua experiência como editora e o atual mercado editorial pernambucano, sobre as atividades que desenvolve na Cultura Nordestina Letras & Artes, além de outros temas ligados a cultura pernambucana.

Salete Rêgo Barros é escritora, editora da Novoestilo Edições do Autor e Produtora Cultural Executiva da Cultura Nordestina Letras & Artes. Nascida no interior pernambucano em 23 de novembro de 1952, no seio de uma família que cultivava as letras e as artes. Concluiu sua graduação em Arquitetura pela Universidade Federal de Pernambuco em 1977, passando, em seguida, a exercer a profissão. No entanto, em poucos anos optava por cuidar dos três filhos em tempo integral. Em 1995, iniciou-se como editora da Novoestilo Edições do Autor incentivada pela poetisa e escritora Ivanete Rêgo Barros, sua mãe, propondo-se, pioneiramente, em Pernambuco, a democratizar a arte literária através de pequenas tiragens, oferecendo aos autores a possibilidade de publicar os seus escritos de forma racional e ecologicamente correta, atividade que lhe proporcionou a oportunidade de desenvolver ações voltadas para a preservação e o resgate da cultura pernambucana.


DCP – Como foi seu primeiro contato com a literatura?

SRB - Foi desde sempre. Em casa, tínhamos uma biblioteca razoável e eu sempre recebia livros nos aniversários, no Natal, quando minha mãe chegava de viagem e quando meu tio vinha nos visitar. A literatura e o rádio eram as únicas janelas que eu tinha para enxergar o mundo que me encantava. A cena que não posso esquecer foi quando recebi, pelos Correios, uma caixa contendo vários livros – resultado de minha participação no sorteio da Rádio Clube de Pernambuco, para onde enviei uma embalagem do sabonete Gessy com a resposta, escrita de próprio punho, à pergunta: Qual o sabonete preferido pelas estrelas do cinema? Meus avós, achando que alguns daqueles livros não eram indicados para uma criança ler, cortaram em pedacinhos os de autoria de Jorge Amado, transformando parte de minha primeira conquista literária em um amontoado de papel picado.


DCP – O que a motivou ser editora?

SRB – O insignificante percentual que minha mãe recebeu de uma grande editora sediada em São Paulo, pela publicação de 8.500 exemplares de um infantojuvenil de sua autoria, lançado em todo o Brasil. O valor recebido, que se transformou em um lanche que nós duas fizemos na Confeitaria Confiança, na Rua da Imperatriz, no centro do Recife, motivou a minha decisão de editar e imprimir os outros livros dela. Deu certo. Surgia em Pernambuco, em 1995, um “novo estilo” de edições independentes, o das pequenas tiragens, de forma ecológica e economicamente correta.


DCP – Como você analisa o atual mercado editorial pernambucano?

SRB - Ainda temos grandes desafios a enfrentar, entre eles: a qualidade das edições e a preferência por títulos de autores estrangeiros e de outras regiões do Brasil. O leitor pernambucano deve ser mais exigente, no que diz respeito à valorização dos autores da terra, abolindo de vez o chamado “complexo da casa-grande”, instituído desde a colonização. Um exemplo concreto é o fato de a obra de Raimundo Carrero ser mais conhecida fora, do que dentro de seu próprio berço e, ao ser convidado para ministrar oficinas de criação literária em outros países e estados brasileiros, ser muitas vezes mais bem remunerado do que é em Pernambuco.


DCP - A Cultura Nordestina Letras & Artes promove regularmente oficinas e cursos para formação de novos escritores. Qual a importância deste trabalho?

SRB - A capacitação é fundamental para o exercício de qualquer atividade. O escritor não necessita, apenas, de inspiração e criatividade. Mais que isso: ele precisa da independência, que se dá através do conhecimento e da técnica. Para que ele entre e permaneça no mercado editorial, é indispensável que se atualize e domine a língua portuguesa em todo o seu dinamismo; que conheça técnicas de criação literária e a história da literatura através dos tempos; que desenvolva sua criatividade, também, através do exercício da escrita de textos dissertativos; que conviva com escritores mais experientes, entre outras coisas que o habilitarão a transmitir a sua narrativa de forma adequada.


DCP – Como produtora e ativista cultural, qual a sua opinião sobre as políticas públicas desenvolvidas em Pernambuco?

SRB - Pernambuco tem, reconhecidamente, um mercado promissor no que diz respeito à sua multiplicidade cultural. No entanto, para que se torne possível a concretização das produções, produtores e artistas precisam, cada vez mais, de capacitação para poder captar recursos, além do convencimento necessário para que empresas e cidadãos invistam mais em cultura através dos incentivos fiscais. No caso específico da literatura vejo, com pesar, que a verba destinada às produções literárias está muito aquém da sua importância para a preservação das nossas raízes culturais. Observo, também, que a meritocracia é substituída por interesses menores (leia-se particulares), quando se trata da aprovação de projetos. O fato subtrai da sociedade o direito assegurado pelo artigo 215 da Constituição, que prevê: O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes de cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. Afinal, o contribuinte renuncia a mais de um terço de seu salário, em forma de impostos, que deveriam ser revertidos para a sociedade, de maneira equilibrada.


DCP - O DCP tem priorizado a divulgação da produção literária de Pernambuco. Como você analisa este trabalho?

SRB - O trabalho que o DCP vem realizando é de importância fundamental para difundir a literatura produzida em Pernambuco, no Brasil e no mundo. As ferramentas que possibilitam essa divulgação (nunca antes imaginada) estão sendo utilizadas com competência pela equipe do portal, e o reconhecimento do fato se reflete através do número de acessos à página, da conquista, pelo segundo ano consecutivo, do prêmio Top Blog Brasil, do perfil das pessoas que acessam o DCP: estudantes, pesquisadores, professores, etc. Um fator relevante nesse tipo de divulgação é o incentivo à leitura – responsável pela formação de cidadãos capazes de se posicionar criticamente perante a sociedade. Empresas que apoiam a iniciativa, certamente, só terão a lucrar, pois associam as suas marcas a um projeto que privilegia o que existe de mais precioso para a preservação das raízes de um povo: a sua produção literária.

Agradeço, sensibilizada, a Natanael Lima Júnior e a Frederico Spencer, a oportunidade de participar do DCP, como colaboradora, e de poder, através desta entrevista, registrar o meu pensamento esperando contribuir, de alguma forma, para despertar a consciência dos que podem mudar a forma como a literatura vem sendo tratada pelas políticas públicas. 



Um comentário:

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima