domingo, 31 de agosto de 2014


Poemas da Semana

Poemas de Tereza Soares, Flávia Suassuna, Jade Dantas, Ducabellaflor, Cida Pedrosa e Márcia Maracajá
 

POESIA FÉRREA
Tereza Soares*










Bonitos brincos de feira
Tiritam e enfeitam a senhora
Sentada de costas p’ro mundo
Passando na estrada de ferro...

Meninos, camisas abertas
Carregam Jesus no pescoço
A prata falsa em seu peito
Reluz que nem o luar

O negro de olhar tão profundo
Ensaia o dia que vem
Está, sem saber, na labuta
Nas curvas da estrada de ferro

Passa assustado ambulante
Com medo do braço do guarda
Mas, o esforço só vale
Se for pela mulher amada

Criança se arrasta aleijada
Já acostumada com aquilo
Mãos pretas, do chão levantadas
Pedindo: “me dê um auxílio!”

E os filhos do sol estão lá
Valentes meninos de rua
Aprendem e brincam de herói
Nos trilhos da estrada de ferro

Essas cenas se repetem
Esbanjando poesia
Não fosse a miséria e a fome
Estampadas em rostos sofridos
E a pressa de quem espera logo
Chegar em algum destino

Sentiria eu mais longo
Esse caminho diário
Essa poesia latina
Dos trens, da estrada de ferro...

*Tereza Soares é poeta, jornalista e da Academia Cabense de Letras



OUTRA ONTOLOGIA
Flávia Suassuna

O que me dói
não é a falta
de ninguém.

Minha vida
sempre doeu
antes de ser
ferida
por essa solidão.

O que me dói
nem sei direito
o que é.

Talvez o que doa
em todos
exatamente:
é o que falta
naquele íntimo
recinto que fala
o que sou
sem articular
sequer
uma palavra.



DO QUE NÃO SABERÁS
Jade Dantas

tu nunca saberás
dos horizontes
da inteireza da espera
da saudade

não saberás das pontes
que baixei
para a tua voz de mel
e ardências. da entrega

do horizonte esfacelado
da tristeza disfarçada
da trajetória sem rumo
não saberás da poesia



CORES
Ducabellaflor

Que as cores incolores
Devastem minhas dores
Causadas pelos rios de estrumes
Dos costumes do amor, adubes

Invade o que em mim é correnteza
E lambe-me os quadros instáveis
De rostos a sorrirem sem certezas
Pela ausência de cores memoráveis
Que rebelam a nossa feroz natureza

Pintai minhas habitações, imploro
Como pintou Frida Kahlo, os quadros
No México do surrealismo, notório
Retratando seus mundos acrômicos, abstratos
Guiados pela algofilia doença, impróprio

Que tudo seja arte, escarlate
De nuances de cinza a preto
Que nada seja poesia ou parte
De uma melodia em tons; soneto



URBE
Cida Pedrosa

Hoje na minha boca
Não cabem girassóis
Cabe um poemapodre
Cheiro de mangue capibaribe
Um poemaponte
Galeria esgoto chuvas de abril
Um poemacidade
Fumaça ferrugem fuligem
Hoje na minha boca
Cabe apenas o poema
O poema hóspede da agonia



TORMENTA
Márcia Maracajá

No sonho estou
De quem me deseja
Mas  no sonho de quem me beija
Não posso entrar

Minha noite é solitária
Fria e vexatória
De juventude que se perde
Ilusória, para breve me deixar

E o amor não vem inteiro
Em pedaços se apresenta
De um jeito ele me tenta
De outro quer me libertar

Contudo os dois já me condenam
E assisto a tudo em tormenta
Eu, um nada, mui pequena
Distante de quem quero estar.



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