domingo, 6 de julho de 2014


Por falar em erotismo na literatura

por Frederico Spencer*











Img: Reprodução


Tanga*

Havia o que se via
e o que não se via:
a manhã luminosa
encobria a treva
abissal e velha dos espaços.
O mar batia
em frente à Farme de Amoedo e ali
na areia
a gente mal o ouvia se o ouvia.

E era então que ela súbito surgia
rindo entre os cabelos
a raquete na mão
e se movia
ah, como se movia!

E nessa translação nos descobria
suas fases solares:
o ombro
o dorso
a bunda
lunar?
estelar?
a bunda
que (sob uma pétala
de azul)
celeste me sorria.

*Ferreira Gullar
In Barulhos, 1887


Com estes versos o poeta maranhense nos ensina, mesmo não sendo esta sua preocupação no momento da criação do poema, aquilo que podemos chamar de erotismo na literatura. Momento crucial onde forma e conteúdo se desnudam e se confluem num verdadeiro balé: a imagem se oferece, mas, o simbólico a encobre com um véu deixando transparecer os contornos ao sabor dos olhos do leitor. Uma dança de cópula e gozo sem, no entanto, causar espanto aos passantes inebriados, sedentos pela sexualidade barata dos anúncios do marketing.

Nesse percurso o poeta não inaugura porto novo nem disseca os caminhos de uma modernidade imposta pelo determinismo dos fast foods e das redes sociais, antes, pratica o domínio da linguagem e da forma de um gênero literário. A poesia é carregada de mistério, posto que sua carne é metafórica e sua alma metonímica e, ao se constituir como símbolo  ergue-se de suas estruturas mais escondidas, adormecidas que estão nas entrelinhas são acordadas para exercer seu reinado.



Poeta Ferreira Gullar/Foto: Divulgação


A linguagem simbólica sendo matéria prima de seu ser - carne que se dilui em múltiplas formas do pensamento humano, o poema só existe porque é fruto do inconsciente do homem e, só como símbolo resiste às retrancas da censura pueril e vaga, impostas pelas normas da cultura.

Como produto do universo simbólico só menciona os objetos, as formas, os sonhos do homem. O poema fixa-se no terreno das impressões escuras das ideias e das imagens e vive por um não dizer, por um não informar. Este dizer e informar pertence à linguagem prosaica, fruto das sociedades normatizadas e da padronização dos comportamentos.

No fragmento: “Havia o que se via / e o que não se via: / a manhã luminosa / encobria a treva / abissal e velha dos espaços”, o poeta escancara, rasga o verbo, mas não cai no cotidiano da significação das palavras e nos leva ao final do poema num clima de tensão, onde podemos sonhar e degustar das imagens criadas pelo seu fazer poético. O espírito descansa e por fim sonha, transgride sua carne, salva o homem da pieguice e da preguiça transformando-o num ser holístico, integrado em sua existência.

A linguagem poética não suporta o coloquial da prosa e sua estreiteza de significado. Pode haver prosa poética, nunca o contrário. Um poema prosaico para se constituir deverá ser escrito por alguém que nunca leu um poema, mas, se autorrotula como poeta.

O poema, antes de nascer se constrói nas imagens que o poeta carrega em seu espírito, oriundas de suas vivências terrenas que buscam sua materialização em forma de arte. Para tanto, é preciso que o verso transmute, alcance-se como símbolo/imagem, impressão daquilo que o olho vê, mas ao transformar-se vista outra roupagem.


*Frederico Spencer é poeta e editor do DCP



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima