domingo, 20 de julho de 2014


Navegando nos versos da memória

Jaci Bezerra – o poeta da canção amiga/Foto: Divulgação

Nesta edição o DCP traz mais um grande nome da poesia pernambucana:
Jaci Bezerra – “o poeta da canção amiga”, conforme Edson Nery da Fonseca: “é não apenas o maior poeta de sua geração, mais um dos grandes da língua portuguesa, estando ao mesmo nível de Pessoa e Bandeira, Mourão-Ferreira e Drummond, José Régio e Jorge de Lima.”
Jaci Bezerra nasceu em 1944 na cidade de Murici, Alagoas. Transferiu-se aos quinze anos de idade junto com a família para a cidade do Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife. Poeta, sociólogo, contista dramaturgo e editor. Foi integrante do grupo de poetas de Jaboatão que mais tarde passou a ser denominado como a Geração 65, foi também fundador da Edições Pirata, importante movimento editorial que lançou mais de trezentos títulos de até então jovens poetas da cidade do Recife.
Segundo o poeta e sociólogo Sebastião Vila Nova: “Se a geração 65 representa um dos momentos mais ricos na história recente da poesia brasileira, o poeta Jaci Bezerra personifica o que de mais refinado e original essa geração revelou. Alguns de seus poemas já figuram entre aqueles que quem lê jamais esquece, os poemas de permanência definitiva nas letras do Brasil.”

Os editores


Quatro poemas de Jaci Bezerra


Composição liricamente surrealista

No verão, se a manhã nasce madura
e o tempo nos relógios se derrama,

um ramo já antigo de ternura
abraça a casa e a casa fica em chama.

E no alpendre do verso em que se abriga
onde a chuva, já velha, cai aos pingos,

a casa vestida à noite de cantiga
se abre feliz como um dia de domingo.

A casa, afinal, é um objeto
de palavras e sons que, embora esquivo,

é capaz de sonhar, quando é aberto
e capaz de voar, porque está vivo.

Tanto que exposta do quintal à sala
avaliando o que vive e o que viveu

ao recordar a infância a casa fala,
como falamos nós, você e eu.

E alguns milagres se passam nos seus quartos,
pois hoje em dia, vencidos tantos anos,

até seus tênis velhos e pacatos
há um certo tempo vêm ficando humanos.


Dever de casa

Era tempo de Deus, e Deus chegava
imprevisto e, quase sempre, ao fim da tarde:

ao chegar, abria as portas que eu fechava
revelando, a um passo, a eternidade.

Tinha, Deus, o esplendor de um feriado
aberto à inocência e aos brinquedos:

nesse tempo de paz e chão molhado
eu via Deus e não tinha medo.

O que sonhava, comigo Deus sonhava,
o sol, o céu, o mar, tudo era nosso:

se queria pecar, Deus não deixava,
a alma desconhecia o que é remorso.

O tempo, com insônia, não dormia,
e a vida, perambulando nos quintais,

apesar de ingênua e mansa já dizia
que esse tempo não voltava nunca mais.

Passou o tempo, passei eu, passou
a vida, a cada dia mais remota:

só não passa, preservando o que restou,
o Deus que sonha e me abre suas portas.


A lavra da vida*

O lavrador aprende
com a pedra de mó
acesa enxada fende
defende o canto só

Defende, não depedra
a áspera e dura horta,
a enxada sulca a pedra
a vida, acesa, brota

Arada a pedra oura
a mão, mesmo doída,
a safra da lavoura
doce safra de vida

A vida não divida
o lavrador a horta
exige toda a vida
dar vida à pedra morta.

(In Lavrador, 1973, p. 98)


Opus 9*

Se cauto o amigo ara
a dura pedra doce
a sentirá tão clara
como se água fosse

Se exausto o amigo chora,
dorme e não amanhece,
verá Nossa Senhora,
aceso mar celeste

Se acaso o amigo ama
e não o ama ninguém
fará, quem sabe, drama
do seu amor, porém

Se tarde o amigo escreve,
entre a pedra e o espinho,
morrerá, sim, e deve,
cada vez mais sozinho

(In Lavrador, 1973, p. 96)



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima