domingo, 15 de junho de 2014


O Conto da Semana

Descrição de uma sala (conto) de Paulo Rocha

 
  Paulo Rocha é editor dos Jornais
        O Litoral e Gazeta Nossa

Estou aqui porque aqui deveria estar. Verticalmente alinhado com o centro da sala, onde você normalmente imaginaria uma lâmpada, se fosse engenheiro, arquiteto, construtor, pedreiro, eletricista ou um morador qualquer não visualmente danificado, não portador de deficiência ocular, não pessoa destituída de visão.

Eu, quase lâmpada, estou aqui.

Quatro ângulos me comprimem, formatados em igual número de paredes mistas em cores, em fungos, em bactérias luminescentes, em sólidas marcas de mãos infantis designando ontens lentamente cumpridos, em veias de tempo instaladas e circulantes, entre areias e gessos, entre massas e cimentos, subestruturas roídas e abertas, agora que eu vejo através de tudo a sala, apenas a sala.

Vejo com calma, com paciência, com dedicação.

Parede 1 com quadro
Pela minha direita desce devagar meu olho direito, perscrutante, lambendo primeiro o claro da tinta ainda não totalmente maculada, depois alisando as pequenas traças que se disfarçam. Roça a rigidez e a ferrugem do prego que sustenta o arame que sustenta a armadura de madeira que sustenta a tela onde aderida está a tinta que um pintorzinho espremeu de seus tubos sujos, misturou com aguarrás, com secante, com óleo, e distribuiu displicentemente para formar: a figura começa nos óculos (porque o olho ainda não desacostumou do acostumado, do elemento principal que nos distrai do essencial) e se espraia não pelo rosto, que só vai ser percebido depois, mas pelo colorido das fitas, todas serpenteantes, fazendo um arco de cores repetidas que giram, esbarram na flor branca pendurada em lábios grossos, desafinam e se perdem na imitação de uma lança, depois voltam atordoados e recompõem o quadro, sinalizando a figura escondida entre as pinceladas de ocre, laranja, amarelo, as cores do chão de Carpina sujas de um verde cana, o maracatu rural não tem olhos de ver, tem olhos de ser vistos, a luminescência das cores substituindo o que eu já disse, desço o olhar mais ainda.

O chão, meu cachorro e seus ganidos
Não aprecio o rés-do-chão, não e não às linhas sujas, caminhos de baratas, de carrapatos assustados como assustado está Pingado, meu cachorro que me olha e gane e forma incerta, inédita, sem ousar seus latidos de: forte e repetido até eu acordar porque alguém passara pela calçada; forte e seco, se alguém estava à porta; longo e desesperado, se uma cadela no cio estivesse a quadras; intermitente, se fogos espocavam pela vitória do Sport; miúdos, repetidos e incrustados quando queria pão à mesa; silenciosos, inaudíveis depois de minha ausência e pelo reencontro, agora rastejando lateralmente pelas paredes todas, na tentativa de repartir uma agonia que é só dele.

Parede 2 com churrasqueira
Em frente, meus dois olhos calmos absorvem a churrasqueira abandonada e suas sombras negras volutando parede acima, Seus retângulos impecáveis no conjunto, a harmonia nascendo da forma imperfeita de cada tijolo preso a outro em sua função inalterada, desde que eu os sobrepus sem pena, um a um, e me quedei ancho, feliz na ilusão com que nos submetemos à arquitetura de uma caverna ou de uma torre, como se o sólido das paredes erigisse em nós também um centro férreo que não arqueasse a coluna, não decimentasse os ossos, não lasseasse os músculos, não traçasse as veredas nas faces. E não cito os ritos da boca e dos olhos, traiçoeiros como o sal nessas mesmas edificações, a nos desdizer e a nos desfazer, e certamente como se sangue, envelhecendo ao se alimentar de si mesmo, numa estúpida circular extenuante, que renegamos e alimentamos, todo dia, todo dia.

Parede 3 com estantes
Trago devagar a textura das estantes e dos armários na parede à direita, quase que sobrepostos em meu ângulo de visão, desfilantes em suas quadraturas, em seus nichos com as garrafas de vinho cheias; as de vinagre, com pimentas gordas, inchadas de vermelhidão e dor, sufocadas em suas próprias essências, apenas rastros de cor na composição aérea de uma decoração inútil. Vejo o Buda e suas parcas moedas que não tinem, mais uma nódoa no mosaico escuro das religiões, já já veremos a nossa senhora de alguma coisa em outra solidão consentida, fraca, acho que mais pra cima, à direita.

Meus olhos perdoam tudo o que vejo, principalmente a pia, lugar de despojos, anexada somente pela fatal decorrência da tortura biológica do comer e do lavar e do excretar, irmã gêmea dos inconcebíveis do banheiro lá do fundo, fora da órbita ocular mas não dos meus sentidos, de igual parâmetro para perfumes franceses, odores vaginais ou excrementos, todos sentidos e medidos e catalogados nas extensas prateleiras postas em filas neurônicas ou massinzentadas de conscientes, inconscientes ou subscientes, como diz meu amigo alemão.

Alemão é um desses experts em chafurdar nas sinapses pervertidas de cérebros indefesos a teorias ditas, desditas e pósditas de escreventes observadores do conceito alheio, todos eles enganados e enganadores, vejo eu agora, pois o que presumem é apenas um nada denso sobreposto a tudo, açambarcador, proeminente, mas subjugado a um outro eu que não somos enquanto somos, só depois.

A parede de que não falei
É lisa a quarta parede, desprovida como eu, que nunca fui de muito, (pobreza, se é assim que dizem e nominam e rotulam e catalogam a parcimônia), eu nos meus poucos tantos nunca precisei de outros, sempre me serviram, sempre me foram bons e bastantes os quase-nada. Lisa de recados ou de significados, em brancura suja da minha história somente, ela que me viu e fotografou e espelhou sem critérios nem poréns, tanto nos dormir no sofá em frente à TV quanto nos roçar de fêmeas, passando incólume pelas conversas dos amigos também poucos, estes mais estendidos pelas horas do único ornamento ainda ali, redondo, vítreo e apontador das horas extensas ou compactas conforme a lua, conforme o amigo, conforme a tensão das peles, conforme a expansão dos pensamentos. Mais das vezes deslizantes, expandidos, quase nenhum voltando ao centro inútil de minha vida, fugitivos que escapavam com a conivência explícita e solidária da mente preguiçosa. Assim lisa desce a parede e se irradia, obra de muita lixa e massa, toda espalhada por mão e obra de homem dedicado, simulando espaço maior ao reduzido espaço, a magia dos claros, clara magia.

O teto
O teto descrevo rápido: Da minha direita até aqui, cinco braços de cimento e ócio, entre eles a pardacenta sequência de cerâmica bruta, que esqueci ou não quis pintar; de mim para a direita, repete-se o alinhamento com parcas nódoas, interrompidas tanto de um lado como de outros por lâmpadas fluorescentes.

No centro de tudo, como uma coluna central que sustentasse a estrutura, meu corpo esquecido, cinzento, os pés juntos e arqueados, meu membro ereto, meus braços pendentes, minha língua longa e fria.

Acho que esqueci de citar a cadeira caída.



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima