domingo, 6 de abril de 2014


Poemas da Semana

Poemas de Frederico Spencer, Natanael Lima Jr, Anderson Paes Barreto, Paulo Rocha e Lenemar Santos

Em um verão
Frederico Spencer

       à uma abelha entre flores

    Img: Reprodução

Tua voz soa
na tarde entre sombras
de coqueiros. A areia fina
em tua pele castiga esta solidão
dos verões que trazes
entre os dentes
o sabor de sal e brasa
em meus ouvidos
um zumbido de ais:
zangões se entregam
ao deleite na morte
anunciada, dedica-se à sua amada
em tardes de verão.

*Do livro inédito Código de Barras



Vadio
Natanael Lima Jr

    Img: Reprodução


Um poema cruzou no meu caminho,
na madrugada fria dos desalentados,
desrespeitou o vazio,
violou o silêncio, vadio
e lambeu –me a cara.

Gozou da minha agonia,
fez labirintos da solidão,
descortinou o amanhecer
e se despediu
sem deixar rastros.



A hora final*
Anderson Paes Barreto

    Img: Reprodução


A hora da morte pode ser agora.
Mas, muita calma,
querida alma.
Não ainda, embora.
Qual será a hora
da minha morte?
Rogo por mim mesmo,
para escapar do golpe.
Que o corpo não se esgote.
Que na minha hora
eu não tenha qualquer tipo de preocupação com hora
ou com seja lá o que for.
Muito menos com solidão e dor.
A verdade é que não sabemos quando,
nem onde, nem como.
Qual será o ano?
Mas haverá uma hora exata,
o minuto exato e sofrido.
Haverá o segundo do último suspiro.
Ele morreu às vinte horas...
Saudade, nostalgia.
Mas já deu meia-noite, por Nossa Senhora,
ganhei mais um dia.
Como seria saber a hora da nossa morte?
Exatamente isso, uma agonia.
E pensar que passamos por ela todo santo dia...
Que me cortem os medos!
Deus é bom até em nos poupar do transtorno de ansiedade.
E evitar calamidades.
Por isso esse segredo.
Não que me falte reza.
Não que se tenha pressa.
Não que se tenha culpa.
As horas passam e a vida vai junto.
Até que uma hora algo acontece,
acabam as pilhas do relógio.
Ou ocorre o óbvio,
o coração esmorece.
Como deve ser
o coração parar de bater?
Alguém já voltou
para contar como foi a dor,
a experiência do quase morrer.
Alguém eufórico.
Mas voltou de onde?
Foi de longe?
E quando foi o coração metafórico
quem parou de bater?
E por quê?
Aí já é dor de amor.
Também não, por favor!
Mas como a poesia
já nos leva para caminhos incertos!
E é preciso se manter esperto,
nessa euforia,
para não fugir ao tema.
Toda vida tem um lema.
E toda vida tem uma sina.
Ensina...
Mas, em suma,
a poesia, assim como a vida,
é como uma pipa que a gente empina.
E sobre isso há quem já disse:
às vezes depende da sorte.
Então, eu cito Clarice:
"Vamos voltar a falar de morte?"




Últimas Palavras
Paulo Rocha

    Img: Reprodução


Minha palavra é um trem que nem Deus governa.
Mal agradecida,
Não pediu pra ser parida
Minha palavra inverna.

É filha de uma luta interna
Crime que se autoimputa
Brasa escondida no verniz da cinza
Raio sem luz nem trovão.

Minha palavra é meu esconderijo.
É sumo, suor e mijo
Chave enferrujada de tua prisão.

Espera de emboscada, minha palavra.
Vive às tuas custas, ri enquanto crava
Em teu corpo tenro o viés da traição.

Nada encerra de bom, minha palavra justa.

Escute então o que a palavra diz:
Sem virar-me as costas, obedeça
Sem adeus sem verbo, desapareça
E seja feliz



Negra
Lenemar Santos

    Foto: Reprodução


Sou uma ilha negra
cercada de preconceitos
por todos os lados.
Sou mulher, pobre e nordestina
sou negra e excluída.
Carrego dentro de mim
ecos dos tambores.
A benção dos ancestrais.
O suor dos caçadores
proteção dos meus deuses.
A selva, o deserto e a savana
rugido dos tigres
liberdade das aves
e as águas do Nilo
correm em minhas veias.
Por isso cuidado o vermelho
dos meus olhos tem a
fúria das florestas.
Evoco os guerreiros a lança
e a zarabatana.
Sou negra sem correntes
sem chibata sou mulher
sou livre como os ventos
da África.





Um comentário:

  1. Belo poemas e a abelha entre as flores, demostra uma sensibilidade incrível. Parabéns para todos.

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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima