domingo, 2 de fevereiro de 2014


A vida é um circo

por Fátima Quintas*









 



Foto: Reprodução

O palco é imenso, pleno de simulações; corresponde ao espetáculo do mundo. Somos todos atores de uma realidade nem sempre atraente. Mas a persona grega ajuda a compor o teatro, embora os personagens ganhem uma identidade tão forte que vale a pena repetir Fernando Pessoa: “Quando quis tirar a máscara / Estava pegada à cara / Quando a tirei e me vi ao espelho / Já tinha envelhecido”. Os dias passam, amadurecemos, e aprimoramos os disfarces. Alegres ou tristes, dificilmente nos revelamos a nu.

Semana passada fui ao encontro de uma amiga que discretamente chorava numa mesa de bar. Avistei-a, respeitei o momento, sentei-me ao seu lado em silêncio. Havíamos combinado um bate-papo, mas entendi a necessidade do mudo desabafo. Ela chorou, chorou, palavra alguma foi pronunciada. Após uma hora de completa acídia, despediu-se: “Precisava chorar com alguém. Desculpe”.

Continuei sentada, mergulhada na dor que me transmitiu. Já era noite e as pessoas começavam a adentrar o recinto, falantes e alegres. Com parcimônia perquiri os rostos visitantes daquele lugar transitório. Vozes se cruzavam em biografias diferentes: um casal se beijava, a garota aguardava por alguém, jovens contavam piadas, a criança, quase de colo, dormia, a mãe oferecia a chupeta, ela aceitava com gozo, uma senhora conversava com a neta, duas gerações distintas interligavam-se, havia gáudio na voz de uma e de outra... a vida ali se fazia sob a ode do riso.

Entre trapezistas, palhaços, malabaristas, o espetáculo do mundo não cerra suas cortinas; não existe intervalo, tampouco ensaio. Poucos vão aos camarins e, quando vão, retocam apenas a maquiagem: ruge em maior quantidade, batom, sobrancelhas bem alinhadas, base para reluzir à pele – a máscara a aderir ao rosto anônimo. De que somos feitos, se a sociedade regula condutas artificiais? Perdemos a espontaneidade em nome de uma razão arbitrária? O choro da minha amiga traduzia um sentimento que devia ser escondido ou pelo menos recolhido a espaços menos visíveis. O choro carrega o pudor de revelar-se, ocultando-se. Rimos mas não podemos chorar em público. Salvo raras ocasiões, explícitas no código vigente.

Demorei a refazer-me. Aproveitei para refletir sobre o espetáculo do dia e da noite. Lembranças acorreram-me, uma narrativa que só eu sabia, a poucos importava, na verdade, a ninguém importava, afinal estamos ocupados em demasia para prestar atenção a sensações íntimas. Não há tempo para estancar o frenesi de uma competitividade que se faz galopante numa arena de exibições: vitórias, vaidades, orgulhos, soberbas... Ah, meu Deus, a quem interessará o choro da minha amiga? O circo da vida reclama falsas aparências. De que é feita a minha máscara? Estarei pronta para enfrentar olhares diversos de reprovação, de aplausos, de omissão?

Levantei-me. Saí. Na calçada, uma mendiga estendia a mão. Perguntei-lhe o nome; receosa, não me disse. De pronto, o vigilante afastou-a. Fui ao seu encontro, dei-lhe uma esmola, agradeceu-me, assustada. Olhos grandes, pele maltratada, lábios carnudos, uma mulher bonita. Observei-a em detalhes. A roupa maltrapilha cobria um corpo magro, esguio, de manequim. Cabelos presos em um coque desgrenhado não a beneficiavam, mas era bonita a mulher mendiga. Como gostaria de conhecer sua origem, sua vida, sua rotina! Percebi que se sentia acuada, melhor acatar seu retraimento. Usava a máscara do medo.

Mãos vazias, rosto triste, abafada pela inutilidade, entrei no carro. Rasguei a minha máscara; duraria pouco, contudo, o ato de desprendimento. Bem sei que o circo continua e faço parte do jogo que me oprime. Que mundo é esse que rouba a espontaneidade de ser, manipulando sentimentos e nobres revelações? Minha amiga, estou por aqui, basta telefonar.


*Fátima Quintas é antropóloga, escritora, ensaísta, cronista e atual presidente da Academia Pernambucana de Letras.



6 comentários:

  1. Belo texto, me fez lembrar Nelson Rodrigues em A vida Como Ela é. Parabéns!!!

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  2. Obrigado pela visita, realmente um texto belíssimo.

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  3. Fátima Quintas, ao ler seus textos, transporto-me a outros mundos, visitando-os, nos paradoxos de mim mesma. Chego ali, onde a noite e o dia se encontram, para ensaiarem a beleza do amanhecer. Amei o texto!
    Lígia Beltrão

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  4. Adorei esse texto. Diz exatamente o que penso. Fiz um ensaio literário sobre a beleza a um tempo atrás. E tem um ponto de vista parecido sobre usarmos máscaras.

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    1. Olá Valéria, que bom que sua visita. Se desejar publicar seu ensaio aqui, estamos à sua disposição.

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  5. Belíssimo texto e muito sincero! Parabéns!!!

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