domingo, 5 de janeiro de 2014


Ventas sedentas de novos ares

por Adriano Marcena*





Img: Reprodução

A velha pergunta Pra que serve a literatura? Parece não esmorecer diante das agonizantes certezas das fragmentações utópicas. Servirá ela para o exercício através da palavra com fins de deleite estético e refinamento das emoções humanas? Exercerá a função de plataforma para defesa de causas político-ideológicas? Será transmissora dos conhecimentos de uma coletividade e o escambau a quatro? Tentar explicá-la nos parece um ato irrealizável diante das inúmeras possibilidades interpretativas e pragmáticas: o que fazer com ela?

Inegavelmente óbvio é que ela deve ser ‘útil’ no seio de uma sociedade excentricamente consumista. Aliás, o sonho de qualquer ser das letras (escritores, editores, críticos, pesquisadores, livreiros e leitores) não é que a obra literária deva ser consumida ao extremo, literalmente devorada? Contudo, muitos defendem a ideia de que a literatura não é produto para consumo frívolo, descartável, puro passatempo: guarda em si uma tênue fatia do gênero humano que pode ser enlaçada e transformada em linguagem. Deverá a literatura também questionar a futilidade do consumo desmesurado?

No Brasil, se o consumo desmedido estivesse enraizado em ‘consumir’ de forma voraz a produção literária, haveria algum questionamento? Parece-nos que não, pois acreditamos que a obra literária só traz benefícios aos humanos. Ela não carrega em si algum malefício, mesmo sendo arte e não ‘produto’? Então, não há um lado desumano na literatura? Ou este lado de desumanização se manifesta somente quando a obra não captura a suposta fatia das contraditórias experiências humanas? No tocante, estaríamos falando de literatura pobre, subutilização da linguagem ou em um discurso que não ajuda a mover as molas precípuas da sociedade ou das nossas emoções individuais? Que anseios nossos discursos se encaixam melhor? Será que só os discursos artísticos confortam a insaciável alma atordoada e os sonhos de uma coletividade? Claro que não.

Será que não é preciso desglamourizar mais uma vez a visão redentora da literatura e das outras formas de arte? Mas é evidente que essa provocação aqui levantada já caducou. A visão que a arte é uma espécie de ‘elixir salvador’ que purificará aqueles que manterão contato com ela, beira ao risível. Literatura não é livro sagrado e, quanto mais profana, mais humana.

Válido mesmo é que a literatura existe (nem que seja para questionarmos sua ‘função’ em nossas vivências ou para abalar nossas funções diante da sua existência) e pulsa feroz para ser na realidade imaginária e social um fragmento das nossas subjetivações. Sem a capacidade de fabular seríamos humanos? Será que tal aptidão não seria mais uma ação que nos diferencia das demais espécies?

Não se pretende salvar o mundo com as artes, pois esta utopia dodecafonicamente parece que desafinou e perdeu seus belos adornos. Sem perder o ânimo por inteiro e montado no lombo de um discurso cidadão, luta-se por uma política pública de cultura democrática – inclusiva e participativa – que não enfraqueça os brasileiros que se debruçam sobre o ofício da palavra, justo aqueles que só enxergam parte do sentido da vida em produzir ou estudar literatura, e também o acesso dos brasileiros ao Brasil literário, um Brasil imaginado pela riqueza da oralidade e pelos mouses inquietos e inventivos ofertados pela palavra escrita, concreta e virtual. É preciso literalmente não aturar os modelos mofados que são esfregados em nossas ventas sedentas de novos ares.

Não desalentar e cobrar das gestões públicas proposições concretas para o segmento cultural, pois muitas conquistas foram alcançadas ao longo dos últimos anos, porém, outras, teimosamente imperam e emperram nossos sonhos cidadãos.

Muitos mandatos são como saborosos confeitos, causam forte impacto de agradabilidade ao primeiro contato com a boca, mas têm data de validade na embalagem. E a velha pergunta insiste em vagar entre nós: Pra que serve a literatura?

*Adriano Marcena é escritor, historiador, professor e dramaturgo



7 comentários:

  1. Parabéns, Adriano Macena, extraordinária matéria.... Continue nos brindando com seu saber. Cordiais abraços de Verluce Ferraz.

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    1. O Adriano sempre é enfático quando fala, suas opiniões são sempre abalizadas e tem endereço certo. Obrigado pela visita, volte sempre.

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  2. Gostei da matéria, continue nos brindando com outras. Parabéns!

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    1. Olá Verluce, ficamos felizes com seu comentário. Realmente um excelente artigo do Adriano.

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  3. Marcena, em cena com afiadas e objetivas explanações. Parabéns, véi!

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    1. Valeu pelas contribuições! Abraços, Neilton!

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