domingo, 4 de agosto de 2013


Apenas o fim (conto) de Paulo Rocha*


(Pintura “Juizo Final”
Afrescos por Giorgio Vasari – 1511 – 1574, Italy)

  
Sempre ouvira sua mãe falar de que haveria um julgamento divino depois que tudo acabasse, mas nunca se preocupara. Agora, tinha medo. Não medo do julgamento, medo de que tudo simplesmente acabasse.
Depois de uma longa existência sem nenhum problema de saúde, há cerca de oito, nove meses, sentira o primeiro sinal: uma fisgada longa e angustiante no coração, que se repetiu por vários dias, com menor intensidade mas cada vez mais presente, a ponto de obrigar-lhe a procurar um médico.
Depois de exames minuciosos, de reuniões entre os homens de branco nas quais não lhe era permitido nem participar nem ouvir, viera por fim o aviso: chegara a sua hora; não teria, a estas alturas, mais de três meses, talvez dois.
Claro, sempre chega a hora de todos, mas cada um encara à sua maneira esta partida. Alguns fazem um demorado exame de consciência, pesam o bem e o mal que fizeram a si e a outros. Outros capricham no testamento, praticando ali, quem sabe, as últimas maldadezinhas.
Ele, que não era religioso, nem bom, nem mau, simplesmente aceitara, com medo, mas aceitara. Era o fim. Já imaginava a hora em que, subjugada a dor pelas pílulas coloridas, só a mente teria a percepção do momento derradeiro, do último pulsar, o negror súbito apagando o cérebro de todo, restando só a carne a apodrecer a partir do próximo segundo, um ponto cinza a menos no universo.
Apenas o fim, nada de Céu, Purgatório, Inferno, Paraíso, Eternidade. Nada de anjos, de encontro com parentes falecidos, de roupas diáfanas e nuvens brancas, apenas o fim.
Aconteceu enquanto dormia, mas sentiu tudo, minimamente: do puxão rápido a uma espécie de névoa que envolvia os sentidos, ao mesmo tempo inibindo os exteriores e reacendendo os interiores, ele girando sobre si mesmo mas sem movimento algum, um sísmico interno revelando novas cores em transparências vermelhas, dobras insuspeitadas e movimentos liquefeitos, pela primeira vez ouvindo o próprio coração dentro do cérebro TUM!, o grande túnel lhe abduzindo depressa, a luz branca temida e esperada em toda a extensão das esferas oculares, suas formas se espichando em um vórtice desesperador, a agonia definitiva misturando energias e massas num teorema inexplicável que lhe faz sentir primeiro a pressão no que pode ser uma faísca de consciência ou a ponta pegajosa da primeira dobra de uma massa encefálica virgem e atônita, suas forças se reagrupando como um exército que renega esta nova batalha e mas continua em frente porque só pode seguir em frente, todos para a frente, buscando com mãos vermelhas de sangue e com narinas vermelhas de sangue e com lábios vermelhos de sangue o grito primevo que liberta, o urro maior que diz eu não vou, eu não concordo, eu não pedi isso, eu não sei quem sou, eu não sei quem são vocês que me olham, que me acolhem, que me limpam e me põem nos braços desta mulher suada, que me oferece um seio que sugo sem amor nem nome, com pavor e fome, eu, de novo.


*Paulo Rocha é escritor e editor do Jornal Gazeta Nossa





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