domingo, 7 de julho de 2013


Gullar busca poesia nas pequenas coisas

(Entrevista concedida ao jornalista, escritor e tradutor Luciano Trigo, exclusiva para o Portal G1 – Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP 2010)


 Ferreira Gullar
 Foto: Reprodução

            


















Gullar é reconhecidamente o mais importante poeta brasileiro em atividade. Vencedor do Prêmio Camões 2010 e do Prêmio Jabuti 2011 com o livro de poesia Em alguma parte alguma. O título do novo livro vem de um de seus poemas: ‘Há uma corola,/ vermelho ferrugem,/ que desabrochou em algum lugar./ Não está no jarro da sala,/ não tem perfume,/ não cheira./Ela está em alguma parte alguma da vida.’ Gullar estava sem publicar poesias inéditas há 11 anos, desde Muitas vozes. Em alguma parte alguma concilia uma preocupação com as coisas pequenas e uma reflexão sobre o cosmos e sua relação com o ser humano. Nesta entrevista Gullar fala sobre o sentido de sua poesia.


Luciano Trigo - Você já disse que só escreve quando tem algo novo a dizer. Sendo assim, qual foi o motor de seu novo livro, Em alguma parte alguma, mais de 10 anos depois do lançamento de Muitas vozes – que por sua vez saiu 12 anos depois de Barulhos? E qual a relação entre esses livros?

Ferreira Gullar - Na verdade meus poemas nascem de alguma descoberta, de algo que me espanta, me surpreende, porque ainda não o percebera antes. Pode ser um fato aparentemente banal. Por isso não há um tema único no meu novo livro, mas temas que surgem casualmente e me arrastam à reflexão especial da poesia. A relação que há entre os dois últimos livros é que, em ambos, o mesmo sujeito, que sou eu, continua a indagar pelo sentido das coisas e a surpreender-se com elas.

Luciano Trigo - Os poucos poemas já divulgados do livro novo sugerem uma linguagem mais sensorial e poemas mais voltados para a percepção de (e a reflexão sobre) pequenas coisas… A impressão procede?

Ferreira Gullar - Você tem razão, as pequenas coisas têm cada vez mais importância em minha poesia, muito embora, uma parte do livro novo fale do cosmo, das galáxias,  do “dentro sem fora”. Mas, na verdade, o que estou dizendo ali é que me importa mais quanto haveria de durar meu gatinho do que quanto dura uma estrela.

Luciano Trigo - Que motivação e que desafios a poesia ainda apresenta, aos 80 anos, depois de tantos livros publicados e do reconhecimento unânime?

Ferreira Gullar - De fato, se estou vivo continuo o mesmo cara perplexo e disposto a encarar a vida. A poesia resulta disso, porque sou um poeta e é próprio dos poetas fazer indagações sem resposta.

Luciano Trigo - Que importância você dá ao Prêmio Camões?

Ferreira Gullar - O prêmio Camões tem, por si, uma alta significação, por ser a maior distinção que se outorga a um escritor de língua portuguesa. Sinto-me, portanto, muito lisonjeado por tê-lo recebido. E o mais importante é que se trata de um reconhecimento de meu trabalho de escritor. Todos nós escrevemos para os outros e para que eles nos reconheçam e se reconheçam no que escrevemos.

Luciano Trigo - Com que autores você dialoga hoje, poetas ou não? Quais realmente mexeram com você, ultimamente?

Ferreira Gullar - Hoje eu mais releio do que leio. Releio os grandes poetas que me ensiram a descobrir a poesia. Mas dialogo também com os poetas de hoje e aprendo com eles. Há bons poetas nas gerações mais jovens. E isso me alegra muito, porque confirma a opinião de que a poesia é essencial às pessoas e por essa razão não morrerá nunca. Isso não quer dizer que ela disputa com a novela da televisão ou com o romance best-seller. Mas, aqui, não é a quantidade que importa. Mais vale um leitor que me diz amar meus poemas do que um milhão de leitores sem rosto que se me leram ou não jamais saberei.

Luciano Trigo - O Manifesto Neoconcreto completou 50 anos em 2009. Que questões do Neo-concretismo ainda estão presentes, para o bem e para o mal, na arte contemporânea?

Ferreira Gullar - Entendo hoje que o movimento neo-concreto levou às últimas consequências questões que estavam implícitas na arte do século XX. Esgotou-as, na linha de seu desdobramento, particularmente nas obras de Lygia Clark e Hélio Oiticica. Não creio que tenha seguidores.








Poemas Miguel Torga, Mário Quintana, Marcus Accioly, Natanael Lima Jr, Frederico Spencer, Abigail Souza e Antonio de Campos


Chuva
Miguel Torga*

(Img: Reprodução)














Chove uma grossa chuva inesperada,
Que a tarde não pediu mas agradece.
Chove na rua, já de si molhada
Duma vida que é chuva e não parece.

Chove, grossa e constante,
Uma paz que há-de –ser
Uma gota invisível e distante
Na janela, a escorrer...

*Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.




Pequeno poema didático
Mário Quintana

(Img: Reprodução)














O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconsequente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre...
Todas as horas são horas extremas...

E todos os encontros são adeuses.




Clarice Lispector*
Marcus Accioly

(Img: Reprodução/Clarice Lispector)
















Ó Clarice, Clarice, ó claridade
vermelha – de maçã no escuro – fogo
na brasa do cigarro, o incêndio e, logo,
a beleza que inflama o corpo que arde.

Chama que atrai a chama e chama a carne
nua e não crua – o todo, a parte, o todo
da mão queimada – a parte, o todo, a parte
da luz que acende a luz com a luz do rosto.

O acidente do sol, o crepitar
do cabelo em fumaça, o despertar
dos olhos sob o ardor e a dor perene.

Os pensamentos queimam suas asas,
queimam-se folhas, queimam-se palavras,
e renasce das cinzas feito a Fênix.

*do Livro Daguerreótipos, 2008




Desarmei as dores*
Natanael Lima Jr

(Img: Reprodução)













Desarmei as dores
e as plantei no jardim do passado.
Ouvi o seu chamado
(contra a vida)
e desviei o seu curso
no silêncio do poema.

Desarmei as dores
como se brotasse do tempo
anéis, pontes, girassóis
e vaga-lumes.

Desarmei as dores
colorindo as nuvens
sobre rios e alagados.

Desarmei as dores
e as amei como quem perdoa,
como algo eterno,
etéreo e fugaz.

Desarmei as dores
como se brotasse das manhãs
folhas, flores e frutos.


*In À espera do último girassol & outros poemas, 2011




Regresso*
Frederico Spencer

(Img: Reprodução)















Retorno para ti
como se trocasse de pele ao sol
que tatua papoulas na manhã.
Para ti retorno
percorrendo territórios
de papel e tinta
onde há muito insisto em descobrir
águas e cores para teu nome.

*Do livro Quadrantes Urbanos, pag. 32




Ao Rio Capibaribe
Abigail Souza

(Img: Reprodução)












Quando a noite chega
deleito-me em delícias
clandestinas estrelas.
Embriagantes vitrines:
                roupa/ópio/corpo.

 Dispo-me para homens
 faces/trajes de mulher
 sonho,  le(r)do e parvo
 engano fatal.                               
                       Realidade?
                              

Nas esquinas
tuas esperas
menina/ mulher
claro/escuro
estrela de sisal.

Teus quartos:
desabafo e dor.
Reflito nos reflexos
- tuas vitrines

nem mulher nem menina
mas o homem que nunca quis
para mais uma vez
(des)aparecer
diante das tuas cortinas. 




Meu país passado a limpo

Antonio de Campos

(Img: Reprodução)











Tenho passado noites

mais em branco do que estes versos

e fico acordado

sem que pestana dê com pestana,

pensando num grande chá de caridade

pra salvar o meu país

 

Sei que não precisas

nem de chá, nem tampouco de caridade

 

Doutra coisa, sim, é que precisas:

sangue pra corar de vergonha a tua cara –

estás crescido e de há muito

perdeste os dentes de leite

 

De sonho em sonho é que se anda:

devagar: o santo é de louça

e ainda quer fazer seu último milagre não econômico

 

Se for econômico, que seja, melhor, mas seja,

pois acreditar em milagre de santo

ensinaram-me os avós

 

Meu Parnaso é aqui e é aqui a minha Pasárgada,

serei amigo do rei ou do presidente,

todavia,

não é pra ter mulheres que desejo sua companhia –

 

a  quero, pra juntos,

tirarmos Jesus Nazareno

à cruz de estrelas do sul onde o cravaram



*1988 (bodas de prata), em Palavra de Ordem







3 comentários:

  1. Simples ou complexas as expressões poéticas são fascinantes e o teor nos conduz a momentos prazer.
    Eu particularmente gosto muito de Mário Quintana que alguns denominam "o poeta das coisas simples" e me perco na simplicidade que para mim é extremamente complexa e cheia de emoção.
    beijos e uma ótima semana.
    Joelma

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  2. Olá Joelma, feliz com sua visita.
    abraços,
    Natanael Lima Jr

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  3. Olá Joelma, feliz com sua visita.
    abraços,
    Natanael Lima Jr

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  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima