domingo, 12 de maio de 2013


Um Jeito de Viver


por Fátima Quintas*
fquintas84@terra.com.br










 Imagem: Reprodução


Nenhuma ostentação me agrada. Sou uma eterna amante das coisas miúdas. De temperamento introspectivo, observo o que se mostra sóbrio, frugal, singelo. Pequenos nadas me atraem: uma xícara de leite quente pingado com café forte, uma folha seca quase invisível, um beijo à sorrelfa, o sorriso do menino desdentado, cabelos molhados, o sino da igreja a tocar, roupa limpa, aliança no dedo, mesa posta, doce de goiaba...

Não me escapam fundos de quintal, terrenos baldios e terra molhada. Trago um atavismo que vem de longe, de épocas imemoriais, alimentado à sombra de vivas ancestralidades. A terra me agrada com o seu toque germinal. No entanto, sou urbana, nunca morei no interior, transito frequentemente pelos recapeamentos do asfalto; mas é mistério dos caminhos virgens que me comove. A terra molhada remonta a passados, alguma coisa inexplicável que habita dentro de mim sem que eu me esforce por recorrer ao exercício da lembrança. De imediato, a imaginação corre para trás, tal qual uma marcha ré inadvertidamente encaixada. O caminho inverso me invade e logo, logo, os aconchegos maternos e paternos me renovam. A genealogia, desenho-a na partitura de um sachê afetivo. Todos nós, adolescentes ou adultos, somos tocados pelo olor da terra molhada. De um jeito ou de outro, há sempre um retorno a um lugar de outrora.

Fundos de quintal e terrenos baldios trazem sentimentos indefinidos. Adejam-lhes fantasmas do inconsciente. Cada pegada no chão de areia corresponde a um retrocesso na memória - toda memória é remissiva. Não há nada mais fustigante que o vento soprando na solidão dos espaços vazios, um dia habitados por famílias ou pessoas anônimas; ou mesmo por consanguinidades próximas. Os enredos deságuam numa história, traduzidos em biografias inscritas na alma, a realçar o rastro da vivência. Resíduos se fixam do plano material ao emotivo. Que dizer de um balde abandonado, de uma corda estendida entre dois troncos de árvore, pronta para acolher roupas molhadas? Ou de um tanque de cimento sem mãos buliçosas, quieto, abarrotado de lodo, às vezes até com restos de sabão amarelo? Fundos de quintal mexem comigo; vasculham intimidades, minhas e dos outros.

Terrenos baldios falam de ruínas, mato silvestre, abandono, silêncio quase sepulcral. Não consigo explicar, mas enxergo algo de nobre na decadência. Um quê de dignidade emerge desse ambiente desolador. Repito Drummond: “De uma torneira/ pinga esta gota absurda./ meio sal e meio álcool, salta esta perna de rã,/ este vidro de relógio partido em mil esperanças”. E os rescaldos dos incêndios da vida proliferam no pires de porcelana jogado ao chão, no copo de vidro grosso que um dia guardou água para beber, na panela sem fundo que dorme sob o sereno em completo desamparo.

Coisas tão simples permanecem dentro de mim. Preciso de pouco para construir a felicidade. Dos pequenos nadas extraio o sumo da existência. Por enquanto, o vidro de lavanda antigo, repousa na discreta penteadeira, me devolve o cheiro penetrante de uma infância longínqua.


*Fátima Quintas é escritora, ensaísta, professora universitária, presidente da Academia Pernambucana de Letras.






Poemas de Lya Luft, Lucila Nogueira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Taciana Valença e Márcia Maracajá




Canção na plenitude*
Lya Luft

Imagem: Reprodução











Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

*texto extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.




Náufraga de si mesma*
Lucila Nogueira

         a Antônio Campos

Imagem: Reprodução













náufraga de si mesma
eu a vi perambular pelo metrô
descalça nas calçadas
eu a vi naquela manhã de domingo
olhos cheios de água
eu a vi sob a chuva que não termina
deitada sobre a grama
eu a vi enfim e afinal ser possuída
e ela se evaporar sem resistência
vitoriosa em direção ao sol

*poema extraído do livro “mas não demores tanto”, Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2011, pág. 63.



Porque
Sophia de Mello Breyner Andresen*
(1919 – 2004)

Imagem: Reprodução











Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendos.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

*Sophia de Mello Breyner Andresen foi uma das mais importantes poetas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prêmio Camões, em 1999.



Momento
Taciana Valença*

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Contudo restou-me desabar no sofá
Cabelos molhados, camiseta
Um filme bobo, meio cabeça
Um resto de vinho do porto
Uma sombra de tristeza...

A saudade rondando a sala
Vinha ébria d'algum lugar....

Aproveitando-se da noite insone
Resolvida a me acompanhar....

Um rastro de luz
Vindo do corredor

O olhar perdido
Entre a alegria e a dor...

*Taciana Valença é editora da Revista Perto de Casa





Poema para este dia
Márcia Maracajá*

Imagem: Reprodução













Por todo sim e não,
Mulheres-mães com ou sem filhos,
Estamos ligadas à criação,
Cuidando do mundo agredido,
Que pede socorro embrutecido,
E carinho e atenção
Somos filhas das filhas de quem outrora
Tinha legião de seres aprendido
Que a natureza merece adoração,
Ante qualquer homem na terra em beleza,
Inteligência, força e argumentação
Somos mães, mulheres, pungentes
Na dança da vida em celebração
Mãos dadas para o todo,
Eternamente
Luz divina em carne, osso
Somos o caldeirão
Sagrado, profanado
Castigado
Pelo seu legado, vida em profusão
Pelejante, avante!
Mãe, mulher
Faça de sua vida o que quiser
Respeitando a sagrada força de Esther
Primaverando nos invernos de nossas vidas!

*Márcia Maracajá é escritora blogueira, performer literária e consultora textual




Sou um gato (conto) de Lygia Fagundes Telles*
  

Imagem: Reprodução

Ele fixaria em Deus aquele olhar verde-esmeralda com uma leve poeira de ouro no fundo. E não obedeceria porque gato não obedece. Quando a ordem coincide com sua vontade, ele atende mas sem a humildade do cachorro, o gato não é humilde, ele traz viva a memória da liberdade sem coleira. Despreza o poder porque despreza a servidão. Nem servo de Deus. Nem servo do Diabo. Lembro agora daquela história que ouvi na infância e acreditei porque na infância a gente só acredita. Mais tarde,
conhecendo melhor o gato é que descobri que jamais ele teria esse comportamento, questão de caráter. Dizia a história que Deus pediu água ao cachorro que lavou lindamente o copo e com sorrisos foi levá-lo ao Senhor. Pedido igual foi
feito ao gato e o que ele fez? Escolheu um copo todo rachado, fez pipi dentro e dando gargalhadas entregou o copo na mão divina. Conheço bem o gato e sei que ele jamais se comportaria conforme aquela antiga história. O cachorro, sim, bem- humorado faria tudo o que fez ao passo que o gato ouviria a ordem divina mas continuaria calmamente deitado na sua almofada, apenas olhando. Quando se cansasse de olhar, recolheria as patas no calor do peito assim como o chinês antigo recolhia as mãos nas mangas do quimono. Elegante.  Calmo. E mergulharia no sono sem sonhos, gato sonha menos do que o cachorro que até dormindo parece mais com o homem. Outro ponto discutível: dando gargalhadas? Mas gato não dá gargalhadas, é o cachorro que ri abanando o rabo naquele jeito natural de manifestar alegria. Os meus
cachorros — e tive tantos — chegavam mesmo a rolar de rir, a boca arreganhada até o último dente. O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos como se os ferisse a luz, esse o sorriso do gato. Secreto. E distante. Nem melhor nem pior do que o cachorro mas diferente. Fingido? Não, porque ele nemse dá ao trabalho de fingir. Preguiçoso, isso sim. Caviloso. Essa palavra saiu demoda mas deveria voltar porque não existe definição melhor para um felino. E para certas pessoas que falam pouco e olham muito. Cavilosidade sugere cuidado, afinal,
cave é aquele recôncavo onde o vinho fica envelhecendo em silêncio, no escuro. Na cave o gato se esconde solitário, porque sabe do perigo das aproximações. Mas o cachorro, esse se revela e se expõe com inocência, Aqui estou!

*Texto extraído do livro “A disciplina do amor”, Companhia das Letras, 2010






Um comentário:

  1. Que momento taciana!

    Às vezes, mesmo com alguém ao nosso lado, temos esse olhar perdido...

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima