domingo, 9 de dezembro de 2012


A Importância do Sertão na Obra de Raimundo Carrero*

 
 
por Gerusa Leal*
 
 

 
 
 
 
 
Foto: Reprodução
  
"Como escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento. Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão (...). No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por ali os anjos e o diabo ainda manuseiam a língua".
Guimarães Rosa

Entrevista conduzida por Günter Lorenz no Congresso de Escritores Latino-Americanos, em janeiro de 1965 e publicada em seu livro: Diálogo com a América Latina. São Paulo: E.P.U. 1973
  
 
A partir dessa fala de Guimarães Rosa, acho que posso, sem receio, afirmar que no sertão, do ponto de vista metafísico, psicológico, fala-se a língua de Raimundo Carrero. E Raimundo Carrero fala a língua do sertão. Mesmo se sertanejo não fosse. Pois a obra de Carrero, também, além de não seguir a receita de Hollywood, se escreve no terreno da eternidade, da solidão. Nos romances de Carrero, os personagens também são o eu que ainda não encontrou um tu. Na estética de Carrero, também os anjos e o diabo ainda manuseiam a língua.
 
Mesmo, dizia eu, que sertanejo não fosse. E sendo, ainda mais força tem o sertão, de todos os pontos de vista, na obra de Carrero. Ainda quando a paisagem e o tema não são sertanejos, os personagens, em sua psicologia, embora urbanos, trazem dentro de si alguma espécie de sertão. E não podia ser diferente já que sertanejas são as raízes do escritor.
 
No romance de estreia de Carrero, e na protagonista escolhida, Bernarda Soledade, a tigre do sertão, a partir do título o sertão se encontra presente. Mas o que chama a atenção, já nesse livro, é a força, a densidade, a vastidão dos sertões interiores. É a psicologia da protagonista, uma mulher seca na exteriorização dos seus atos, como secas parecem as fortes mulheres do sertão, seca nos gestos, nas palavras, como era da cultura sertaneja no tempo em que o romance é ambientado, como seco parece o sertão quando não chove:
 
“- Naquelas matas, vamos caçar muitos cavalos. Em Puchinãnã, falta um homem de músculos fortes. Poderia sair do meu ventre. Entretanto, não passo de uma mulher seca. Nenhum homem quis pousar sobre o meu corpo alvo. E os cavalos serão a presença do macho.”
 
Carrero, mesmo sendo sertanejo, costuma dizer que não conhece seca, pois em Salgueiro chove muito. Além disso, fica difícil falar na importância do sertão, região geográfica ou socioeconômica, pois teríamos que definir se falávamos do sertão mítico, que persiste no imaginário principalmente de quem não é da região, ou do sertão contemporâneo, que apesar de preservar cultura própria, já assimilou tanto da cultura dos grandes centros urbanos. Os dois convivem, como já disse Antônio Torres, sem se negar.
 
Os personagens de Carrero não têm nada dos personagens tipo da literatura regionalista. Então, não dá pra falar da importância do sertão na obra de Raimundo Carrero sem reinventar o significado da palavra.
 
Ariano Suassuna teria dito que o sertanejo é um povo de sobrevivência. Euclides da Cunha, que é antes de tudo um forte. Os personagens de Carrero todos lidam com a questão da sobrevivência e todos são, a seu modo, fortes, mesmo quando precisam tirar essa força de uma incomensurável fragilidade. Assim como todo ser humano. É desse substrato sertanejo que nascem também as personagens de Sombra Severa, vivendo paixões primitivas, com uma secura temperada de afetos que nunca se dizem de todo.
 
Se há um sertão de Guimarães Rosa, um sertão de Euclides da Cunha, um sertão de Ariano Suassuna, em As sementes do Sol – O semeador, o leitor é apresentado ao sertão de Raimundo Carrero, um sertão que, segundo o próprio escritor, foi criado como a região geográfica Arcassanta, que pode ser uma fazenda, um povoado, uma cidade, ou apenas um simples lugar deslocado do mapa, à beira da estrada, de um rio, de um açude. Érico Veríssimo inventou Antares. Outros autores preferem nomear os lugares pelo nome que receberam na tradição. Carrero diz preferir ter mais liberdade. Sua região, seu sertão começou com Santo Antônio do Salgueiro, ou simplesmente Salgueiro, e evoluiu para Arcassanta, porque, afirma o escritor, não sou retratista, sou intérprete. Esse sertão, que Raimundo Carrero carrega para onde for, aparece em algumas passagens de As sementes do Sol:
 
“Terminada a reza, pesou sobre a sala um silêncio morto. O silêncio da noite de Arcassanta. Um silêncio morto e suave. Um silêncio que beirava a agonia. E sem qualquer ruído, enquanto as empregadas solícitas e caladas providenciavam as outras comidas, os homens levantaram as cadeiras para se sentar.” (...)
 
“Avistaram a casa-grande de Arcassanta. A casa – avarandada, alta, pintada de branco, portas e janelas azuis – apareceu no meio da neblina.”(...)
 
“Parecia que retornava a Arcassanta, os chinelos empoeirados, para conviver com fantasmas, almas penadas. Para escutar o bater de portas e janelas abandonadas, sacudidas pelo vento.” (...)
 
“Eram seis horas. Sabia porque de Arcassanta podia escutar as batidas do sino da capela de Santo Antonio do Salgueiro. Batidas monótonas, tristes, compassadas. Mais monótonas e mais tristes quando ouvidas à distância. Na lonjura das ideias.” (...)
 
“O cavalo fazia voltas, voltas, mas estava mesmo era retornando para Arcassanta. Involuntariamente. Sem que ele, o cavalo, nem ele, Absalão, tivessem forças para evitar.”
 
Carrero não evita. Em O amor não tem bons sentimentos, romance cujo cenário e temática são bem mais urbanos, retorna a Arcassanta:
 
“Agora me lembro do corpo de Biba nas águas barrentas do rio em Arcassanta, e tenho certeza de que na verdade estava de cócoras, por causa do hábito. Apenas de calça, sem camisa, repousava os braços nos joelhos, os pés na lama. Não foi assim desde o começo, confesso que não foi assim. Disse aos policiais tantas vezes, apesar das pancadas.”
 
Arcassanta, o sertão de Raimundo Carrero, aparece em outros romances, mesmo sem esse nome, de outras maneiras. Em Sombra Severa, por uma narrativa de forma seca, com frases curtas e incisivas, economia verbal que caracteriza o lacônico Judas. O sertão como região está presente no romance, mas mais como paisagem para um enredo que se passa muito mais dentro do que fora dos personagens. É do sertão de dentro que vêm também as impressões, os pensamentos, as solidões de Judas:
 
“Judas pensou em tudo isso depois que trouxe o tamborete, sentou-se encostado na parede da casa, o alpendre recendendo a matos verdes, e acendeu o cigarro, cuja fumaça – antecipada pelo vaga-lume do fósforo –ensombreou o rosto ossudo e taciturno já escurecido pelas abas do chapéu, ombros arriados, um olhar sofrido – o touro que o habitava -, gestos monótonos de quem sabe que a noite não recua.”
 
Carrero já disse, em outro momento, que foi no Sertão, vendo os homens nas feiras, vendo os vaqueiros, que sua vida começou a ter sentido. Não só os homens fortes e trabalhadores, os vaqueiros, mas também os bêbados, os loucos, os fracassados. Não só os homens, mas também as mulheres. Não só as mulheres secas e de uma virtude severa, austera, mas também as prostitutas.
 
Foi nesses homens e mulheres observados desde a infância, primeiro no sertão, que também a vida de seus personagens ganhou sentido. Já em As sementes do Sol – O Semeador, Carrero reflete sobre questões que ganham características únicas sob o Sol de um sertão que transmite a seus personagens a cultura e os valores de uma região, embora sejam questões universais, como por exemplo as da religião, da morte:
 
“As vizinhas rezavam em torno do caixão. Davino e os filhos sentaram-se na mesa para o almoço. Apesar da morte da esposa, não permitiu que alterassem os hábitos da casa. Mesmo quando recebia os pêsames, ordenou que as empregadas preparassem um cozido gordo. Não admitiu sequer que Mariana, tão frágil quanto um vulto, permanecesse ao lado do caixão. Desejava todos na mesa, todos. (...)
 
Davino fez o Nome-do-Pai. Todos o acompanharam. Segurando uma velha Bíblia de capa negra, rezou o salmo. Terminada a oração, os talheres tiniam. Mariana, mais ausência do que vida, colocou umas poucas colheradas no prato. As lágrimas escorriam pela face. Lutava para servir-se. Escutavam-se, vindos da sala de visitas, os cânticos fúnebres.
 
Lourenço tocou com o cotovelo em Absalão:
- Ainda não foi visitar o rio onde sua mãe suicidou-se?
Davino levantou a voz.
- Não quero que fale deste assunto agora. Aliás, você conhece suficientemente os costumes desta casa, Lourenço. Sabe que não é permitido falar na mesa. É no silêncio da mesa que se agradece a Deus pela abastança.”
 
Questões como a embriaguês habitual do personagem são também tratadas, em As sementes do Sol, à luz dos costumes, valores e cultura sertaneja:
 
“A mesa, Absalão sabia, não era ali como um templo. Era uma arena. Uma luta. Lourenço sempre falava, embriagado ou não. Embora fosse raro não estar embriagado. Ester o repreendia, poupando o nervosismo e o refinamento do marido. Muitas vezes reuniu os filhos antes das refeições para pedir que não rissem com as brincadeiras do tio.”
 
O cenário da figura do patriarca à cabeceira da mesa, do respeito que lhe devia toda a família, dos cuidados da mulher para que esse respeito não fosse afrontado pela ingenuidade das crianças ou pelo destempero do parente embriagado, ganha contornos típicos pela influência da formação sertaneja do escritor, o que fica bem evidente nas cenas e diálogos lidos. Típicos nesse aspecto, pois as questões, é preciso reafirmar, são universais. Como bem lembra Tolstoi na abertura de Anna Karenina, no sertão pernambucano ou na Rússia, as famílias infelizes são infelizes cada uma a sua maneira. E é dessa infelicidade, dessas agruras, dessas angústias, desse eu que ainda não encontrou um tu, seja no sertão, seja nos espaços urbanos, que a obra de Carrero fala, através da vida de seus personagens.
 
Pincei algumas poucas obras, alguns poucos personagens que, a meu ver, exteriorizam mais a importância do sertão na obra de Carrero. Mas em todos os seus personagens o leitor vai encontrar, de alguma forma, essa força, esses valores, essa cultura sertaneja, mesmo que os personagens, repito, sejam urbanos. Foi a forma que encontrei para não fugir ao tema proposto pela mesa, para não seguir por um viés reducionista, por uma análise sociológico-geográfica.
 
A obra de Carrero é vasta, seus personagens são complexos, a raiz sertaneja é um dos múltiplos aspectos que nutrem suas narrativas – sua Arcassanta, que ele carrega para onde for. Importante, sim, mas mesmo quando explicitado, na obra de Raimundo Carrero o sertão aparece como elemento de composição, cenário para a reflexão sobre temas e questões humanas de ocorrência e importância universal. Ou, como diria Autran Dourado, perda recente para a literatura brasileira, grande escritor e teórico da prosa de ficção:
 
“Os críticos-sociólogos recebem os personagens como gente, ainda estão na mimesis, quando os criadores muito pouco se preocupam com isso, a não ser secundariamente, para passar a sua moeda falsa e iludir – da mesma maneira que com a metáfora – o leitor: o bom do personagem é ter um corpo...”
 
Os personagens de Carrero têm corpo mas, acima de tudo, têm alma. E é muito mais nessa alma que circula, metaforicamente, o sangue sertanejo do autor.
 
 
*Gerusa Leal é escritora e editora do blog “Flor de Gelo”
 
 
*Texto da fala de Gerusa Leal na mesa em homenagem a Raimundo Carrero, em Arcoverde, na quarta edição da Jornada Portal do Sertão, promovida pelo SESC Pernambuco.
 
 
 
 
 
POEMAS DE OSCAR NIEMEYER, NATANAEL LIMA JR, FREDERICO SPENCER E ANTONINO OLIVEIRA JÚNIOR
 
 
 
 
 
Poema da Curva
Oscar Niemeyer
1907 – 2012
 
 
 
 
Foto: Reprodução

 
 
 
Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e
sensual.
A curva que encontro nas
montanhas do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas nuvens do céu,
no corpo da mulher amada.
De curvas é feito todo o universo.
O universo curvo de Einstein.
 
 
 
 
Ainda batem nossos corações*
Natanael Lima Jr
 
                         para o poeta Paulo Cultura
 
 
 
Imagem: Reprodução

 
 
Sim, poeta, é chegado o tempo de recomeçar
é chegado o tempo de nos unir
voz a voz
sonho a sonho
poema a poema.
 
Sim, poeta, é chegado o momento de navegar
(“navegar é preciso”)
e embalar nossos sonhos
numa canção fraternal
aberta ao sol e as manhãs.
 
Sim, poeta, é chegada à hora
(“viver não é preciso”)
nada mais nos acrescenta
tudo mais nos limita.
 
E para não nos esquecermos,
ainda batem nossos corações.
 
Calhetas, janeiro, 1985
 
 
*do livro “À espera do último girassol & outros poemas”. 2011.
 
                       
 
 
Um lampejo*
Frederico Spencer
 
Ao poeta Ferreira Gullar
 
                          “o poema não voa de asa-delta
                          não mora na Barra
                          não frequenta o Maksoud...”
 
 
 
 
Imagem: Reprodução

 
 
Às vezes
poeta, num lampejo
acho o poema
                              bipolar
de comportamento:
é triste, às vezes chora de rir.
É deficiente:
às vezes sangra
manchando o azul de vermelho
a manhã por falta
de vitamina K se derrama
numa hemorragia
sufocando a pena
implora para não nascer
faz-se de morto
no seu velório, é avesso
à dor e à alegria empresta
sua alma, poeta
para viver neste mundo.
 
 
*do livro “Abril Sitiado”. 2011.
 
 
 
 
A paz que me acolhe
Antonino Oliveira
 
 
 
Imagem: Reprodução
 
 
 
Deitei meu olhar
Na relva macia que é teu corpo
E ali deixei que repousassem meus sentimentos;
Teu silêncio,
 
A paz que acalenta e acolhe minh’alma.
Quem se abriga nas asas do amor,
Vence tempos, ventos e tempestades.



 



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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima