domingo, 18 de novembro de 2012


Quando a porca torce o rabo




 
por Frederico Spencer*
 
  
Em alguns casos já nos atrevemos a receitar um remédio para um amigo, na tentativa de vê-lo mais feliz, como também a fazer poesia, versos românticos na maioria das vezes, em algum momento da vida. Os bilhetes de amor e a receita, ao menos de um chá, já nos ajudaram a salvar muitos relacionamentos mostrando assim que estamos atentos às pessoas mais próximas.
 
“A porca torce o rabo”, conforme Affonso Romano de Sant’Anna - título de um texto que o poeta mantém pronto e o envia para aqueles que pedem sua opinião sobre seus trabalhos – quando, na maioria dos casos, gostando do retorno dos bilhetinhos de amor, nos dedicamos a escrever poesia mais regularmente e começamos a guardar, na velha gaveta da cômoda, os nossos sonhos de poeta, pensando em editá-los num livro em algum dia.
 
É fácil ver a quantidade de pessoas que dizem gostar e também que fazem poesia, inclusive, no meio acadêmico a poesia resiste ao tempo e ressurge como ferramenta importante na educação de jovens. Recentemente, numa visita a uma turma de pedagogia vimos o interesse dos alunos em fazer e entender poesia. Declamações de versos consagrados e também da produção de alguns daqueles futuros professores nos deixaram atônitos pelo volume de trabalho apresentado.
 
Sem fazer nenhuma crítica, mas pegando o gancho, referente ao fazer poético, é preciso entender que poesia é forma e conteúdo. É fácil ver que a grande maioria dos futuros poetas se contenta com uma só fatia do bolo. Ou trazem um texto com rimas ortodoxas ou trazem um texto panfletário, em ambos os casos o conteúdo do poema é sacrificado o que mostra que o futuro poeta ainda é refém da linguagem, porque não consegue fugir do coloquial.
 
Poesia, acima de tudo é imagem, ritmo e o fingimento do poeta, conforme Fernando Pessoa, para não entregar suas armas na primeira leitura. As metáforas, colocando as interrogações do leitor nas entrelinhas, são a salvação do poema como tal, o contrário é conversa de bar, coisa coloquial jogada fora.
 
Poesia também se faz através da leitura de poesia e de todos os outros gêneros, além da leitura da realidade que nos circunda. A arte é reflexo do momento histórico, social e político. O poeta é antes de tudo uma antena de seu tempo, ser agnóstico, que decodifica os sinais recebidos.
 
*Frederico Spencer é poeta, sociólogo e psicopedagogo
 
 
 
 
 
Um breve comentário sobre
“As Aventuras de Pedro no País das Letras”
 

por José Fernandes da Silva*


Partindo de uma rápida leitura do livro: As Aventuras de Pedro no País das Letras, fiz uma reflexão sobre seu rico conteúdo e destaquei algumas ideias para comentar. Esta obra literária também poderia ser as aventuras de muitos brasileirinhos ou ainda, uma autobiografia coletiva, por isso, peço permissão para incluir-me em alguns aspectos.
 
No passado ocorria com mais frequência a cobrança e a vigilância dos pais relacionadas às explicações sobre a origem de qualquer que fosse o achado, independente do seu valor. Comecei a frequentar a escola após os 11 anos de idade por iniciativa própria. Quando eu cometia um erro, era penalizado ouvindo a promessa de que no próximo Janeiro iria para a escola.
 
Esse comentário para mim soava como uma grande ameaça à minha integridade. Fazia-me lembrar das histórias de alguns alunos que ficavam durante horas de joelhos sobre caroços de milho bem como as sessões de “bolos” nas mãos com palmatória de madeira de sucupira, somente por ter respondido de forma errada a uma questão.
 
O fato de ainda não frequentar, naquela época a escola ameaçadora, eu era levado a desdenhar daqueles alunos das primeiras séries: “os cartas do ABC” passantes na minha porta, a caminho da escola ou dela regressando. Hoje entendo meu comportamento do passado, como elaboração de uma defesa egoica de bases inconscientes.
 
Entendo que o medo do novo (o ambiente escolar) fazia também com que eu me sentisse um destes “Pedros”, trazidos à luz nesta obra. Observei que os atores que influenciaram a personalidade do Pedro identificam-se com os principais atores do teatro da vida das pessoas simples (pai, mãe, irmão, etc.), exceto por ele ser filho único, característica incomum nas famílias de baixo poder aquisitivo.
 
Alguns teóricos postulam que, por nascermos sem desejos, somos o desejo do outro que, por ser detentor das normas socioculturais vigentes, indica-nos o caminho a seguir, colocando-nos a serviço da satisfação dos seus desejos. Neste pacote há, também, as frustrações dos próprios desejos não realizados por esse “Outro”, onde se inclui os desejos das realizações dos próprios pais nos filhos (o meu pai, falecido em 1992, era analfabeto).
 
No que se refere à escola pública: A autora mostra algumas falhas arraigadas no sistema educacional, mormente na escola pública e, sinaliza para mudanças como um desejo de Pedro, mas que no fundo do questionamento, bastando atentar aos seus comentários sobre a motivação da sua obra, parece ser um desejo seu, colocado de forma ética e didática, tendo o Pedro como interlocutor.
 
Na minha época de alfabetização (1961), o bullying não tinha a conotação de hoje. No entanto, os “Elvis e Andrés” de cada escola, que transformam os sonhos da maioria em pesadelos, parece que sobrevivem ao tempo pela omissão de todos nós. Atualmente são alarmantes as notícias sobre violência nas escolas.
 
O estigma em relação ao negro, apesar das mudanças decorrentes da nova legislação, ainda existe de forma velada. Não são poucos os “zés da silva” que continuam vivendo, nos dias de hoje, um processo de autoanulação deixando de exercer o seu direito legítimo de, pelo menos, sonhar. Evocar a tia Júlia, para mim serviu para provar que cada um tem aquela tia que, mesmo sem novas notícias, ainda habita nas lembranças do tempo em que éramos felizes e não sabíamos.
 
*José Fernandes da Silva é psicólogo e capitão da Marinha do Brasil 
 
 
 
 
 
POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, ANTONIO DE CAMPOS E S. R. TUPPAN 

 

Crepúsculo*
Natanael Lima Jr
 
 
Imagem: Reprodução
 
 
Alguém transpõe o silêncio impunemente
refém da oblíqua tarde em decadência
executa a existência sem piedade
macerando os sonhos ao ar livre?
 
Alguém nos move
e nos remove ao nada
ao acaso da morte e da vida
sem surpresa e despedida?
 
Alguém por sorte da exígua lida
finge ser luz da visceral noite
e em prantos ilumina o rosto
abominável reflexo que não vê o dia?
 
Alguém na derradeira caminhada
falseia a memória dos séculos
iludindo pobres pecadores
do orbe morto e rejeitado?
 
Alguém na trave do olho se inspira
e do reles argueiro nada vê
crê na mão que apedreja
despreza aquela que afaga?
 
Alguém do sinistro rastro finda
marca o rosto de um narciso morto
posto na lama
sem fama e desfalecido?
 
Alguém do crepúsculo se completa
e sustenta as mãos vacilantes
que cosem as linhas do tempo
na aurora de uma nova vida?
 
*do livro “À espera do último girassol & outros poemas”
 
 
 
 
 
Ezequiel em Nova Iorque
Antonio de Campos
 
 
Imagem: Reprodução
 
 
 
 
No coração do Central Park, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo –
 
América, bato palmas com furor contra a exploração que praticas,
no descampado dos horizontes & na capoeira das paisagens,
só usura & lucro enxergas,
teu próximo devoras com as mais avançadas escavadeiras da Morte
 
Deste vez aos tipos de violência mais vis
que teceste à sombra da noz de teu cérebro doentio,
ao estrangeiro oprimes como prensa que esmaga o fruto da oliveira
e de mim, um branco em tua mente se fez lírio do esquecimento
 
Promoveste guerra por óleo e para o desenterrar,
milhares de vidas enterraste,
grileiro internacional,
invadiste a terra que não era tua, velho vício de tua alma sem cura
 
Com arrogância & soberba,
descumpres a tua palavra
e à minha, voltas teus ouvidos de perfurados tímpanos
 
Por isso, determinei a dança frenética dum furacão no mar para te punir,
o fiz sair às pressas de minhas mãos
e o soprei em direção à tua costa leste
 
As ruas de Nova Iorque, tua capital & do Mundo que te serve,
serão assaltadas por ágeis quadrilhas dágua,
Pânico, Pavor, Medo & Terror
tomarão conta de ti qual anciã de bengala
 
Virão como cavaleiros sobre os quais lias no Apocalipse
e os destinavas apenas a budistas e xintoístas do outro lado de tua outra costa por ti usurpada e alegavas que assim lhes sucedia
 
porque não criam em Deus,
quando tua crença em mim está graus abaixo da gélida crença
de budistas & xintoístas, juntos
 
Cancelarei os shows da Broadway,
a seus cantores a voz secarei na garganta,
suas luzes servirão como reflexo no palco vazio das calçadas
Transformarei Times Square
num cenário digno de O Fantasma da Ópera
 
Turistas vagarão aos milhares
como cardumes de peixes atordoados,
por dois dias as roletas da Bolsa deixarão de converter
sangue, suor & lágrimas em commodities
 
Retornarás aos tempos escuros das cavernas
e ouvirás o pio da coruja, em vez do bebop
 
As buzinas dos carros emudecerei
como os que dormem no Cemitério de Mármore,
em East Village, até ontem destinado a eventos sociais
do mais frívolo & fino pó da cidade
 
Do poder & arrogância teus, América,
restará a imagem do guindaste dum arranha-céu
em Manhattan –
molho de ferro velho retorcido pelo Vento,
 
pronto a vir abaixo
como tudo o que se ergue com alheio sofrimento!
 
outubro 30, 2012
 
 
 
 
 
Caminhos misteriosos
S. R. Tuppan
 
 
Imagem: Reprodução
 
 
Como uma lâmina percorro teu pescoço fino
Descendo, perco-me no vale de mel acre
Dizendo-me sim, encontro teu sorriso árido
Volto a  perder-me, então suspiro
 
Teu sexo sobre meu juízo massacre
Do vinho da paixão do anjo imberbe
Num giro, sorvo lavas de teu vulcão dorsal
Deixo-me solto em teu fulgor total
 
Teus seios sugo e o leite é doce
Já teus escarros, faminto absorvo
Tal néctar bom. Se abelha fosse,
 
Pousaria em tua flor. Mas, sendo corvo,
Como teus milhos e a ti devolvo
Em mijo e vômito: amor, me regozijo!



 



Um comentário:

  1. Muito bom seu poemaTomei a liberdade de publicar no meu blog www.sertaodesencantado,blogspot.com o poema Alambedeira e a divulgação do livro. Caso os autoras não concordem é só avisar que retiro a postagem Abçs

    ResponderExcluir

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima