domingo, 28 de outubro de 2012


Para quem não gosta de poesia





por Abigail Souza*










No mundo moderno a comunicação vem assumindo uma velocidade inversamente proporcional ao nosso tempo disponível. Este fato tende a nos tornar insensíveis, alheios ao processo de melhoria do conhecimento.

Em particular, a poesia em toda a sua existência vem cumprindo a façanha de manter o homem no seu equilíbrio, uma vez que a sua riqueza encontra-se nas entrelinhas.

Enganam-se os que pensam que ler e compreender poesia é entender o que ele, o poeta, quis dizer no seu momento de criação. Não! Além da riqueza vocabular que ela provoca entendê-la irá depender diretamente do estado de espírito de quem a lê.

Quantas vezes nos surpreendemos ao reler um poema e descobrimos outros sentimentos despertos que não aqueles de uma primeira leitura? Assim é a poesia e suas multifaces.

No passado, éramos cobrados pela professora de português sobre o que havíamos entendido e/ou o que significava um poema exposto no quadro negro. Obviamente cada um expunha um significado diferente. Para ela, o aluno de pensamento mais próximo era o correto. Todos os demais eram rechaçados nas suas interpretações.

Infelizmente é alto o índice de professores que não gostam de ler. É só observar numa reunião com professores: quantos se expõem sobre o que pensam ou até quantos tentam ler e/ou comentar sobre um texto?

Cabe ainda outro protesto. O preconceito sobre homens que gostam ou que escrevem poesia ainda permanece. Com muita sutileza e de forma velada ele vem resistindo ao tempo.

Viviane Mosé é enfática no seu livro “O homem que sabe” quando afirma: “Em vez de negar o sofrimento constitutivo de tudo o que existe, a cultura pode se dedicar a fortalecer o homem, tornando-o capaz de enfrentá-lo. Podemos vencer a dor sentindo-a plenamente, utilizando como estímulo a arte [...]”

*Abigail Souza é professora e escritora  

 

 
 
Noumenon, de Rogério Generoso:
o poeta no meio do vazio

 
por Adriano Marcena*

 
 

 
 

 

Cidade cortada por uma multidão que se intitula poeta, Recife tem em seu passado grandes nomes oferecidos à poesia brasileira. No Recife, talvez seja mais fácil esbarrar num poeta que num poste de luz.

  

Poucos são aqueles que se lançam com obras maduras diante do invejoso asfalto egocêntrico do Recife e conseguem resistir ao pisoteamento fajuto da emulação que assusta a muitos.
 
Outros tantos poucos seres das letras já nascem quase prontos diante das irrequietas leitoras retinas. Quase prontos porque bastam em si e não mais que isso: um constante exercitar-se no meio do vazio em busca da formatação da linguagem mais cabível ao que escrevem. Tais isolamentos os tornam diferentes dos demais que o cercam. Arte pelo artífice: artesão, operário, criador, inventor, autor e, por fim, artista. Não acreditam em arte sem apurar, aprimorar e refinar: a capacidade de reinventar-se. Ao artista, cabe uma paciência quase monástica para encontrar o termo certo, o tempo preciso e a forma exata que tecem suas obras.
 
Quem não se resigna às exigências da arte pela reinvenção contínua, precisa utilizar outros subterfúgios para que seu nome ganhe notoriedade. Normalmente, procura-se a aprovação, no caso da literatura, de um sacromonstro das letras pernambucanas que recomende ou prefacie seus verdeguentos escritos. Metralhados serão os que ousarem dizer quaisquer ofensas aos escritos do protegido, pois certamente será amaldiçoado e condenado a jamais gozará dos deleites finais do Olimpo egotístico das letras pernambucanas.
 
Não obstante, há tantos outros e outros tanatoprácticos que não trafegam por nenhuma das vias expostas e ‘sobrevivem’ a perambular promulgando seus trejeitos literários, dissabores estéticos e suas insanáveis necessidades de ser gente, metade sonho de poeta, metade medo do sacromonstro.
 
Atrever-me-ei a lembrá-los de um livro simples, sem grandes pretensões de quaisquer ordens e que ainda está longe de ser condenado ao literacídio prematuramente. Trata-se de Noumenon, de Rogério Generoso. Aqui é um caso à parte, pois não pretende saciar a fome dos sacromonstros e nem deseja desfrutar das delícias do Olimpo.
 
Longe de querer ser percebido nas primeiras estrofes, Generoso, afastando-se da provável adjetivação, cria linguagem elaborada em que o significante é mais importante que o significado, permitindo que o poeta jogue com suas construções em vários planos de linguagem sem entregar de mãos dadas o que todo leitor quer: compreensão imediata do que está lendo. Afinal, que compreensão deseja o leitor? Quererá ele a compreensão literal da obra ou o entendimento literário da vida?
 
Generoso em sua construção versificante não edifica o nada, o insignificante, ou o insurgente, mas antes, o todo e sua ressignificação pela linguagem inventiva humana. Há insânia sede pelos sucos do vazio que se erguem nas têmporas do poeta. Que monótono abismo deverá o verso vergar-se a espertar o ruído do infinito? São provocações que me insultaram pós-leituras.
 
A provocação do poeta inicia com o título do livro, sugado de neologismo kantiano: Noumenon. Rogério Generoso deixa claro seu caminhar seguro pelos labirintos poéticos e, como poucos da sua geração – para me privar do superlativo – não se perde na mesmice monótona das cores do cais no final da empreitada nem ignora o poder do Minotauro.
 
Tristes fins terão os artistas que não dialogam como silêncio, com o vazio humano e, como consequência, desejam agradar seu público, pois costumamos nos lembrar muito mais daqueles que nos cravam, impiedosamente, cruentos punhais da existência no enovelar líquido das nossas tripas atônitas que aqueles que querem nos agradar com suas fingidoras metáforas geloses. Artista que não incomoda é tão inofensivo como um copo d’água fresco o é às células do corpo humano.
 
Em Noumenon, o bom leitor precisará estar atento à realidade tal como existe em si mesma. E o mau leitor, só precisará ler como se a retina tateasse ovos de plumas. Em Noumenon, de generoso, tem nada não sobre o nome.
 
*Adriano Marcena é historiador, dramaturgo e escritor
 
 
 
 
 
 
 
POEMAS DE NATANAEL LIMA JR, ROGÉRIO GENEROSO E CÍCERO MELO
 

 

Solilóquio*
Natanael Lima Jr


 











a praça está vazia...
 
e talvez o silêncio 
descreva o que sinto agora
na solidão da madrugada
sem amigo e sem poesia
 
escuto de minh’alma uma voz silente, fria:
- por que o teu coração amarga descrenças,
tristezas e incertezas?
 
ah, alma intranquila que és!
à noite segue-se o dia
e o canto que te sorves agora
transforma, acalma e ilumina
 
talvez o silêncio da praça
descreva o que sinto agora
na solidão da madrugada vazia
 
 
*do Livro “À espera do último girassol & outros poemas” 
 
 
 
 
Que mais há a dizer?
Rogério Generoso
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Que mais há a dizer?
Pátios vazios
féretros de anjinhos
tomates rubros de véspera
rumores do aroma de Dulcinéa
pedras portuguesas do cais;
ilhas de Neruda
cores de Miró
narcisos amando outros
o rio Capibaribe sem pontes
a ponte de ferro sem rio
o inexistir
 
A úbere fêmea
a ubiquidade de Tánatos
o terceiro reich, a panaceia
a higiene dos octogenários
a literatura pobre da ex-literatura
a poesia enjoativa decassílaba;
a crisma a crema o creme chantilly
a alfazema Hugo Boss, a América
o toque de recolher, todos os tiranos
a meta: física, linguagem, etc.
a palavra CONCRETA, a reta
Que mais há a dizer num poema?
 
- Eu prefiro abrir a janela.
 
 
In Generoso, R. Noumenon: poesia. Recife: Ed. do Autor, 2010. p. 26.
 
 
 
 
Orfeu dilacerado
Cícero Melo
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
      “Descida de Orfeu aos infernos à procura da
                        sua amada Eurídice.
                   Photo: Maicar Förlag – GML.
 
 
 
Agora denomino e me diviso.
Minhas mãos e braços estão na janela,
Onde habitam as palavras verdes
E amarelas do vento ensandecido.
Minhas pernas estão na fronteira
Do prazer e da solidão.
 
Lá, as línguas não se desatam.
É o país das palavras vermelhas,
Onde a noite tece sua condescendência.
 
O tronco foi dilapidado no país dos amores inconclusos
Que devoram todas as cores.
 
A cabeça, ó deuses cegos e vazios,
Explodiu dentro de vós,
Vinha.

 



2 comentários:

  1. Parabéns, Abigail e Frederico, pelos breves textos corpulentos.
    Felicitações ao domingocompoesia.com por sua contribuição à literatura brasileira.
    Abraço, Adriano Marcena.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima