domingo, 7 de outubro de 2012


A Política no Domingo com Poesia




Natanael Lima Jr*
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aristóteles (384 – 322 a. C.)
 
 
 
Enquanto seu mestre Platão dedicou-se preferencialmente por fazer reflexões de construções sociais imaginárias, utópicas, por projeções sobre o melhor futuro da humanidade, Aristóteles, seu discípulo mais famoso, procurou tratar de coisas concretas, reais, dos sistemas políticos existentes na sua época. Buscou classificá-los, definindo suas características mais proeminentes, separando-os em puros ou pervertidos. Desta forma, enquanto Platão inspirou revolucionários e doutrinários da sociedade perfeita, Aristóteles foi o mentor dos grandes juristas e dos pensadores políticos mais voltados à ciência e ao realismo.
 
 
“O homem, quando perfeito, é o melhor dos animais, mas é também o pior de todos quando afastado da lei e da justiça, pois a injustiça é a mais perniciosa quando armada, e o homem nasce dotado de armas para serem usadas pela inteligência e pelo talento, mas podem sê-lo em sentido inteiramente oposto. Logo, quando destituído de qualidades morais, o homem é o mais impiedoso e selvagem dos animais”.
 
Aristóteles – “Política”, 1252 b.
 
 
Inteligência prodigiosa e de saber enciclopédico, Aristóteles deixou duas grandes obras sobre a ciência política: “Política” (Politeia) que provavelmente eram lições dadas no Liceo e registradas por seus alunos, e a “Constituição de Atenas”, obra que só se tornou mais conhecida, ainda que em fragmentos, no final do século XIX, quando foi encontrada no Egito; registra as várias formas e alterações constitucionais que ela passou por iniciativa dos seus grandes legisladores, tais como Drácon, Sólon, Pisístrato, Clístenes e Péricles e que também pode ser lida como uma história política da cidade.
 
A “Política” divide-se em oito livros, que tratam da composição da cidade, da escravidão, da família, das riquezas, bem como de uma crítica às teorias de Platão. Analisa também as constituições de outras cidades, num notável exercício comparativo, descrevendo-lhes os regimes políticos. Aristóteles, por sua vez, não foge da tentação de também idealizar qual o modo de vida mais desejável para as cidades e os indivíduos, mas dedica a isso bem menos tempo do que seu mestre. Conclui a obra com os objetivos da educação e a importância das matérias a serem estudadas.
 
Aristóteles utiliza-se do termo política para apresentar um enfoque único: a ciência da felicidade humana. A felicidade que consiste numa certa maneira de viver, no meio que convive o homem, nos costumes e nas instituições adotadas pela comunidade à qual pertence. O objetivo da política é, primeiro, descobrir a maneira de viver que leva à felicidade humana, isto é, sua situação material, e, depois, a forma de governo e as instituições sociais capazes de a assegurarem.
 
A política aristotélica rompe com o isolamento moral e passa a interagir as ações humanas numa amplitude coletiva. Estabelecendo um padrão de felicidade coletiva. Diante da preservação da felicidade Aristóteles recorre a uma conduta democrática. Com o predomínio da democracia o homem superou o seu individualismo em nome da coletividade.
 
 
*Natanael Lima Jr é poeta, pedagogo e editor do blog Domingo com Poesia
 
 
 
 
 
 
POEMAS POLÍTICOS
 
 
 
 
 
Rabo de palha
Marcelo Mário de Melo*
 
Aqueles que semeiam justiça
precisam poder levantar
um centímetro a mais
os ombros e a cabeça
quando andam pelas ruas
e entre os poderosos.
 
Quem luta contra o capital
precisa disto.
 
No mínimo é uma coisa boa
para o coração e a coluna.
E à luta popular
também é sempre bom
ter pessoas com o coração sereno
e a coluna no lugar.
 
Mas para alguém poder andar
com o coração em paz
e a coluna no lugar
é preciso não ter rabo de palha.
 
*Marcelo Mário de Melo é poeta e jornalista, nasceu em Caruaru (PE) e veio para o Recife com 9 anos de idade. Escreve histórias infantis, mini-contos e textos de humor.
 
 
 
O poema
Ferreira Gullar*
 
Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
se apago a lâmpada:
os sapatos – da – ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó –
dos – andes,
bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
morrem comigo.
 
Ou não:
o sol voltará a marcar
este mesmo ponto do assoalho
onde esteve meu pé;
deste quarto
ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
uma nova cidade
surgirá de dentro desta
como a árvore da árvore.
 
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.
 
*Ferreira Gullar nasceu em São Luis do Maranhão, em 1930, procurou em sua obra a problemática da vida política e social do homem brasileiro. De uma forma precisa e profundamente poética traçou rumos e participou ativamente das mudanças políticas e sociais brasileiras, o que lhe levou à prisão juntamente com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968 e posteriormente ao exílio em 1971.
 
 
 
Construção*
Chico Buarque
 
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

*Construção é uma canção do cantor e compositor Chico Buarque, lançada em 1971 para seu álbum homônimo. Junto com “Pedro Pedreiro”, é considerada uma das canções mais emblemáticas da vertente crítica do compositor, podendo-se enquadrar como um testemunho doloroso das relações aviltantes entre o capital e o trabalho.
 
 
 
Comícios íntimos*
Cyl Gallindo
 
Olho e vejo a praça:
é um campo aberto
onde se plantam flores
e nasce Liberdade.
Mas acintosamente estão
plantados arames farpados
e placas:
“Não pise na relva”.
 
Plantam-se ainda
olhos e bocas
de fuzis
nas esquinas
e nasce o medo
e eu passo
cautelosamente
e vou fazer Comícios
dentro do meu quarto.
 
Olho e vejo a Casa:
é um lar inviolável
onde se planta amor
e nascem filhos.
Mas acintosamente estão
plantados à porta soldados
e uma voz:
- “Ordem superior!”
 
Plantam-se ainda
vigília
com olhos e ouvidos
dos melhores amigos
e nasce o medo
e eu paro e
sigilosamente
vou fazer Comícios
dentro de mim mesmo.
 
*Poema enviado a Ênio Silveira em 72, mas mantido inédito até recentemente, quando foi incluído na Antologia – Caliandra – Poesia de Brasília, Org. Alan Viggiano – André Quicé Editor/95. Vertido para o francês pela Profª. Nilda Pessoa, da UFPE.
 
 
 
Sinal fechado*
Frederico Spencer
 
Há um abril
no calendário, esfolhando o tempo
de ferro, prisioneiro
de homens, intemporal.
Traz nos ombros estrelas:
o compasso e sua chave, no peito
verde bélico, empalhando o tempo
para todo o sempre, este mal.
 
*do livro “Abril Sitiado”
 
 
 
Aos mestres, com desrespeito
Alberto da Cunha Melo*
 
Dizem que meu povo
é alegre e pacífico.
Eu digo que meu povo
é uma grande força insultada.
Dizem que meu povo
aprendeu com as argilas
e os bons senhores de engenho
a conhecer seu lugar.
Eu digo que meu povo
deve ser respeitado
como qualquer ânsia desconhecida da natureza.
Dizem que meu povo
não sabe escovar-se
nem escolher seu destino.
Eu digo que meu povo
é uma pedra inflamada
rolando e descendo
do interior para o mar.
 
*Alberto da Cunha Melo, nasceu em Jaboatão, Pernambuco, em 1942 e se encantou em 13 de outubro de 2007. Alberto pertenceu à chamada Geração 65 de escritores pernambucanos.
 
 

 


 



Um comentário:

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima