domingo, 13 de novembro de 2011


Poesia e Música*

Dono de poemas urgentes, letrista e músico apaixonante. Um guerrilheiro doce e apaixonado chamado Taiguara. Defensor das minorias, romântico inveterado, escrevia os poemas e ao mesmo tempo os musicava. Tudo isso nos anos 60 e 70, o Domingo com Poesia vai encher você de profundidade dialética e te presentear com versos puros e açucarados de um ícone da MPB do período da ditadura militar. Deleite-se dos versos desse ser iluminado: Taiguara.


*Colaboração Ronildo Albertim, 13/11/2011.


Taiguara
(1945 – 1996)



Hoje
(1966)

Hoje, trago em meu corpo as marcas do meu tempo
Meu desespero, a vida num momento,
A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo.

Hoje, trago no olhar imagens distorcidas,
Cores, viagens, mãos desconhecidas,
Trazem a lua, a rua, às minhas mãos, mas
Hoje, as minhas mãos enfraquecidas e vazias
Procuram nuas pelas luas, pelas ruas,
Na solidão das noites frias, sem você,
Hoje, homens sem medo aportam no futuro,
Eu tenho medo, acordo e te procuro,
Meu quarto escuro, é inerte como a morte.

Hoje, homens de aço esperam da ciência
Eu desespero e abraço a tua ausência.
Que é o que me resta vivo em minha sorte

Ah, sorte, eu não queria a juventude assim perdida,
Eu não queria andar morrendo pela vida
Eu não queria amar assim, como eu te amei...



Que as crianças cantem livres
 (1972)

O tempo passa e atravessa as avenidas
E o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé
E o vento forte quebras as telhas e vidraças
E o livro sábio deixa em branco o que não é

Pode não ser essa mulher o que te falta
Pode não ser esse calor o que faz mal
Pode não ser essa gravata o que sufoca
Ou essa falta de dinheiro que é fatal

Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê
Que há sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver

E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer...



Terra das Palmeiras*
 (1974)

Sonhada terra das palmeiras
Onde andará teu sabiá?
Terá ferida alguma asa?
Terá parado de cantar?
Sonhada terra das palmeiras
Como me dói meu coração
Como me mata o teu silêncio
Como estás só na escuridão
Ah! Minha amada amordaçada
De amor forçado a se calar
Meu peito guarda o sangue em pranto
Que ainda por ti, vou derramar
Ah! Minha amada amordaçada
Das mãos do mal vou te tirar
P'ra dançar danças de outras terras
E em outras línguas te acordar...

*Inspirado no poema do poeta francês, Paul Éluard " Terras das Palmeiras"



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