quarta-feira, 12 de abril de 2000


NESTOR VÍTOR

(Paranaguá/PR, 12/04/1868 - Rio de Janeiro/RJ, 13/10/1932)


Poeta, contista, ensaísta, romancista, crítico e conferencista. Amigo e estudioso da obra de Cruz e Souza. Autor de uma vasta obra e divulgador da literatura francesa. É um dos principais poetas da escola literária simbolista. Fez parte do grupo simbolista carioca. Foi correspondente dos jornais O País e do Correio Paulistano. Escreveu poesia, ficção e literatura de viagem, mas foi na crítica literária que se notabilizou.
Principais Obras: Transfigurações (1902); Signos (1897); Cruz e Souza (1899 – Organizador das obras completas); A terra do futuro (1913); Três romancistas do norte (1915); Cartas à gente nova (1924); Folhas que ficam (1920); Parasita (1928 – Novela).


Os versos*

Versos ... são candelabros que se tocam
Tirando estrelas do cristal ferido ...
Óleo de que perfumes se deslocam.
Estranhos, num vapor vago e fluido...
        
Bergantins marchetados de ouro e prata
A balouçar num mar sonoro e ardente,
Que todo em nenúfares se desata
E em ilhas verdes, infinitamente ...

Versos ... largas cadeias de diamante,
Lançadas de um extremo a outro da Terra
Para pô-la risonha e soluçante,
— Áureas grilhetas de amorosa guerra ...

Flores do Desespero, doloridas,
Lírios feitos de sangue, transmudados,
Sob o ardor das insônias homicidas
Qual um punch a luz verde germinados ...

Versos! que alma sonora e tumultuosa
— Céu em que os astros chocam-se cantando —
Que alma grande, alma nobre, alma ansiosa
Não vos anda risonha procurando.

Dos Eleitos vós sois os mensageiros!
Canta, por eles, florescente rima,
Por eles mergulhais, filtros traiçoeiros,
As almas numa embriaguez opima.

Adernando-vos leves e graciosos
É que o Poeta arrebata e nos transporta
Para aqueles países fabulosos
Do Sonho, abrindo ao Infinito a porta.

Não pode alguém se libertar dos laços
Sob os quais o tenhais escravizado
Enquanto lhe ritmar, sonora, os passos
A grilheta de um verso terso e ousado.

Ah! toda esta ânsia que nos arde ao seio,
Todo este fogo que nos queima a boca,
Se revela das formas neste anseio,
Nesta sofreguidão absurda e louca.

Porém, se nós pudéssemos apenas
Abrir os olhos, dominar o Mundo,
E em atitudes nobres e serenas
Mostrar-lhe todo o nosso estranho fundo ...

Se em palavras se dissesse tudo,
Num ardor, num cantar vivo e direto,
Fora melhor que se ficasse mundo:
Era mais simples e era mais completo ... _


*Transfigurações (1902)



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