BREVE APONTAMENTO SOBRE FLORBELA ESPANCA



Por Maria de Lourdes Hortas*






A poetisa portuguesa Florbela Espanca (1894-1930)







...0s meus gestos são ondas de Sorrento
Trago no nome as letras de uma flor
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...


Assim se descreve a poetisa Florbela Espanca, uma das maiores poetisas portuguesas de todos os tempos.

Nascida em 1894, filha ilegítima de pai incógnito e mãe solteira, sua vida, marcada pela fatalidade, foi o prefácio da sua obra. Faleceu com 36 anos. Alguns biógrafos levantam a hipótese de suicídio, todavia não há elementos suficientes que confirmem essa versão. Casou-se três vezes, mas em nenhum dos seus relacionamentos encontrou a felicidade amorosa que perseguia.

Fugindo aos padrões femininos da sua época, adquiriu a fama que a acompanhou até à morte: a da leviandade. Sua ânsia era a de esgotar a vida, embriagando-se com ela:

Eu bebo a vida, a vida a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno(...)

Livre, única, só, nunca fez parte de escolas ou correntes literárias, surgindo na constelação literária portuguesa como estrela de luz própria.

Sua obra poética, postumamente reunida em um só volume, consta de 4 livros de sonetos .Também depois da sua morte, foram publicados os seus contos e os seus diários.

Em seu intenso e autentico lirismo encontram-se matizes que vão do egocentrismo à abnegação. Apesar de ter utilizado imagens caracteristicamente parnasianas ( referencias mitológicas e vocabulário tão ao gosto do seu tempo, onde brilham metais, sedas e pedrarias), a obra de Florbela ultrapassa o século XIX pelo anseio de libertação que transmite.

Seus sonetos, de inegável força e conteúdo, vão muito além dos jogos verbais do parnasianismo, escola literária onde se privilegiava a arte pela arte.

Florbela tinha muito a dizer. E o disse com voz revoltada, por vezes patética: sem sombra de dúvida foi ela, em Portugal, a precursora de uma linha feminista de literatura. Com linguagem forte, chocante para a época, a poetisa teve a coragem de declarar:

Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Herdeira da ousadia de Mariana Alconforado, monja que escreveu cartas de amor, a Soror Saudade, como a chamava o seu grande amigo, também poeta, Américo Durão, foi muito além da freira que escreveu as famosas Cartas Portuguesas. Mesmo espartilhada pelo formalismo do soneto, sua obra ultrapassa o círculo do seu tempo, e permanece aberta, como a obra dos grandes poetas da humanidade.

“Ser poeta é ser mais alto, é ser maior/ Do que os homens! Morder como quem beija!/ É ser mendigo e dar como quem seja/ Rei do Reino de Aquém e de Além-dor!/ É ter de mil desejos o esplendor/ E não saber sequer que se deseja!/ É ter cá dentro um astro que flameja./É ter garras e asas de condor!/É ter fome, é ter sede de infinito!/por elmo, as manhãs de oiro e de cetim.../É condensar o mundo num só grito/ E e amar-te assim, perdidamente.../ É seres alma, e sangue, e vida em mim/ E dize-lo cantando a toda a gente”.




*Maria de Lourdes Hortas é poeta, ficcionista e ensaísta








POEMAS DE FLORBELA ESPANCA
ESCOLHIDOS POR MARIA DE LOURDES HORTAS





A MULHER

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


ANGÚSTIA

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar! ... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, com o vento! ...

E não se apaga, não ... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga ...
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!


CONTO DE FADAS

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras de uma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d'oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: “Era uma vez...”


EU

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada … a dolorida …
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!…
Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber porquê…
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,

E que nunca na vida me encontrou!


VOLÚPIA

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...



BREVE APONTAMENTO SOBRE FLORBELA ESPANCA BREVE APONTAMENTO SOBRE FLORBELA ESPANCA Reviewed by Natanael Lima Jr on 00:02 Rating: 5

4 comentários

  1. Excelentes, o texto de Maria de Lourdes e a seleção dos poemas de Florbela.
    Parabéns.

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  2. Belo texto sobre a poesia de Florbela Djalma da Conceição Espanca.

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    1. Olá caro Marcos Cordeiro, prazer receber teu comentário. abç

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