SEMPRE NÉLIDA PIÑON – OS CACOS DO CORAÇÃO DE UMA VIAJANTE A ESMO



Por Diego Mendes Sousa*






Escritora Nélida Piñon / Foto: Divulgação






1     - APLAUSOS ENTUSIÁSTICOS


Louvada pela inteligência nacional e internacional, Nélida Piñon está sempre a extrair, do seu coração de viajante a esmo, novos elementos ficcionais, históricos, sentimentais e memorialísticos, que constituem a essencialidade inaugural dos seus fascinantes textos em permanente estado de juventude e plenitude artísticas.

É com imensa expectativa que espero por Um dia chegarei a Sagres, que está sendo preparando na Lagoa, paisagem do Rio de Janeiro, depois da maturação do romance em terras lusas, e que traz satisfação a todo brasileiro que preza pelos encantos do que é, e do que será eterno.

A criação é um contínuo retroceder, um fio movido pelo belo. Nélida, como representante máxima da Literatura em Língua Portuguesa, foi agraciada no final do ano de 2018, pela Universidade de Évora (Portugal), com o Prêmio Vergílio Ferreira, já concedido anteriormente a Mia Couto e a Eduardo Lourenço.

Nélida Piñon também é festejada em terras da Espanha, donde descende a sua genealogia Cuínãs e Piñon, tendo sido distinguida com o Prêmio Príncipe de Astúrias (2005), antecedida pelo mago Juan Rulfo e por seus amigos pessoais, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes, pelos notáveis escritores Günter Grass, Doris Lessing e Arthur Miller, bem como sucedida por Paul Auster, Amos Oz, Margaret Atwood e Philip Roth, nomes que impõem o alto nível intelectual em que está inserida a extraordinária e profunda carioca, neta de espanhóis da Galícia, nascida em Vila Isabel - pedaço peculiar do Rio de Janeiro - em maio de 1937.

E não será espanto, caso o primeiro Prêmio Nobel de Literatura, ofertado ao Brasil, caia certeiro e justo nas mãos da autora de A República dos Sonhos.



(acervo: arquivo nacional)



2     - ARREBATAMENTO INOVADOR

Mocinha, no verdor dos seus vinte anos de idade, Nélida Piñon lapidava o seu romance Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo (1961), quando recebeu uma sentença severa, porém estimulante e atilada, de Rachel de Queiroz (à época, a maior escritora brasileira): “Seu livro tem pedras verdadeiras e pedras falsas”.

A imaturidade de quem inicia no corpo a corpo da linguagem é esperada, no entanto, foi surpreendente a maneira equilibrada como Nélida Piñon conduziu os avassaladores e os delicados temas que sobrevoavam e costuravam a sua peça principiante: transcendência, transgressão, virtudes e remissões humanas.

O impulso renovador estava ali, a germinar as palavras de metáforas e de ressurreições como ela fez no título Madeira Feita Cruz (1963), um convite excepcional para investigar a estética Nelidiana ou Piñoniana, como prefiro, por ser mais sonoro.



(acervo: arquivo nacional)




3     - OS LIVROS E AS HORAS ESTÉTICAS

Nélida Piñon é uma escriba de talento e de linhagem, transita pela escrita-poética e pela escrita-filosófica. Livro das Horas (2012), por exemplo, transborda em imagens metafóricas e em sutilezas do pensamento: “A chuva é benéfica. Da janela observo o jardim sob a dádiva das águas. Sinto que sou eu quem faz vicejar os tomates, as batatas, as ervilhas e as doses de sonho”.

Nota-se que Nélida Piñon é uma romancista glorificada em sua criação, consciente de seu poder sobre a palavra e de sua força extremamente humana: “Ando pela casa. O percurso é curto. Sei por onde vou. Esbarro no meu universo, cimentado no chão, para nada voar, sair pela janela”.

A busca Piñoniana está na memória, não apenas na lembrança de instantes passados, mas na reflexão interior dos seus caminhos vividos ou não vividos, reais ou irreais, como ficções formidáveis ou realidades passageiras: “A memória é frágil. Consulto suas fontes no afã de defender meus haveres”. E continua soberana: “E quem será dono de mim? Eu, ou minha memória, que funciona como um legado paralelo ao meu ser. Uma matéria que mal domino e com a qual não conto quando mais a necessito”.

Nélida Piñon ousa, impõe teorias, imprime temas e arrebata poesia: “Com os anos piorei. Falta-me a leveza de pular os muros da casa e ir solta pelo mundo. Hoje, até a literatura, que me força a fabular, mal consente que projete um romance capaz de minar um pilar que seja da sociedade. Mas insisto em criar. A vocação do amor é amar quem está perto. Sofrer a mordida do desejo que faz o corpo arder. Saber-se vítima de uma lógica que escamoteia a verdade”.

O Amor estético reaparece em cada linha escrita por sua pena valiosa, uma provocação anímica sem respostas plausíveis. “Aprendo a amar. Uma arte difícil, nenhuma norma me orienta. Às vezes, abro o coração e despejo flores e dejetos na vida do outro. Sem medir as consequências, mitigo a sede alheia, esquecida de beber as impurezas do próprio copo. Debruçada na janela, o escuro da noite despoja-me dos haveres. Mas não me assusto. Anseio por liberar-me das obrigações, da falsa polidez, do peso dos objetos. A solidão, que a noite acentua, é a minha salvaguarda. Sorvo o vinho rubro da taça, que combina com o sangue. Ouço música, as emoções afloram. Transbordo, retraio. A vida me exalta e não sei como cuidar dela”.

Nélida Piñon sabe da sua importância em nosso cenário cultural. Ela acredita na vocação e no destino, sobretudo, nos sonhos: “O escritor é um mistério. Amealha mentiras e doutrinas capciosas. Faz crer aos demais que sua caneta o torna um herói. Cedo ainda tive a convicção de que, se aquele Machado de Assis existira, o Brasil era possível. Não podia se furtar à grandeza a que se destinava. Mas, se Machado de fato existiu, como perdoar os malfeitores, os corruptos, os que nos aviltam proclamando uma identidade que não merecem?”.

É interessante ressaltar que Nélida Piñon presidiu a Casa de Machado de Assis, sendo pioneira na função – enquanto na condição de mulher – e, exatamente, quando a Academia Brasileira de Letras enaltecia o seu próprio centenário. “Onde esteja, no Rio de Janeiro ou Teresina, faço parte de uma manada, de um rebanho, de uma colmeia. De um conjunto de vacas e de bois, de criaturas extenuadas que consomem anos mastigando a erva que amarela sob o cáustico brilho do sol. Embora humana, com tronco, membros e certo cérebro, transito por animal de pasto, por bicho que voa, por seres que desprezam a crueldade de minha espécie. Sou um terrestre modesto e, segundo o vulgo, não arroto grandeza”.


4     - ILUMINURAS E CINTILAÇÕES

Nélida Piñon é uma romancista sem temor e fiel a sua arte de avançar além das fronteiras do pensamento e dos limites humanos. É isto! Para Nélida não há geografias inalcançáveis. Ela segue os mapas, as casas, os destinos, os sonhos e os desertos, sem medo. Levanta temas como o incesto, a homo afetividade, os pecados, as glórias da alma do homem... Tudo, em perfeita poeticidade!

Escreveu importantes obras de prosa longa, com toques dramáticos e operísticos, como Fundador; A Casa da Paixão; Tebas do meu Coração; A Força do Destino; A Doce Canção de Caetana; Vozes do Deserto (Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano), além dos livros de contos Tempo das Frutas; Sala de Armas e O Calor das Coisas.

Escolho retalhar aqui A Casa da Paixão, motivado por imensa admiração por esse poema em prosa e por devoção àquela que sabe transformar a natureza humana em linguagem de fino horizonte. O sol é o caminho mais próximo da vertente iluminada de Nélida Piñon, para quem ela concebeu o livro ora festejado: "Seus dedos mágicos trabalhavam em torno apenas e nos momentos penosos consentiu, por misericórdia e fidelidade ao sol, que os dedos, imitando garras, se ampliassem cobrindo-lhe o sexo como o tecido branco do casulo. Exijo coragem e a natureza consente. Sem a imagem, cederia a qualquer galho, consentindo a ruptura desleal. Deixava então que a proteção bendissesse a sua casa, chamava de casa ao recanto difícil, impregnado de líquidos, também águas de um rio chinês. Imaginava o homem auscultando o seu corpo. Primeiro com a boca, seus outros instrumentos haveriam de trabalhar com a precisão da agulha injetando alento nas artérias. Não o queria ainda, antes devia selecioná-lo livre, também ela o peixe que se alimentava da agonia de sua raça. Ele repetia, Marta, de onde surgiu sua sabedoria, ela explicou então: o sol, Jerônimo, amei mil homens amando o sol. Marta, ele condensou suas esperanças, via-se a exaustão no rosto contraído, ele era criatura perplexa e intumescida, adquiria seu membro afinal a consistência do ferro, a carne da mulher untada pelo sangue e esperma do homem, que já vinha, um horizonte banhado pelo sol. Eu me sacrificarei ao sol. Meu corpo está impregnado de musgos, ervas antigas, fizeram mazelas e chá do meu suor, todos da minha casa. O próprio pai esperava eu dormir para que transpirando eu os beneficiasse com vícios, minhas inúteis conversões, pois sempre eu me convertia às árvores, sombras, à memória de um corpo venerado quando dos sacrifícios ao sol. Sol abrasando o lombo, descasca minha pele, aspereza tão digital que me faça água no vasilhame, aceito a forma que me dá. Sou a carne que ele desnuda. E a paixão da minha carne, afinal decidida à força dos raios, é semelhante aos que se destinam à morte. Morte que queria, pelo prazer, pela agonia de privar com pedras brutas, trabalhadas com a língua pelas criaturas religiosas, tanto que as depredaram. Sob a custódia do homem, Marta acordou. O sol a convocava, ardência de estação livre. Ela solicitava seus raios, para que afinal o homem a habitasse. Pensava obediente no curso do seu sangue. A carne flamejava, eles jamais recusariam a alegria das partes ímpias”.



(acervo: arquivo nacional)



5     - O PRESUMÍVEL CORAÇÃO DE UM APRENDIZ PINÕNIANO

Nélida Piñon é linda, encantadora, deslumbrante! Por dentro e por fora. Releio agora O Presumível Coração da América (2002) e Aprendiz de Homero (2008) e revejo os seus fortes romances e os seus maravilhosos contos. Sempre bem jovem, como é a alma fascinante de uma notável escritora!

O rosto exótico de Nélida Piñon é um convite, à parte, para um mergulho duradouro em sua exuberante Literatura, marco fundamental da prosa-poética do Brasil, onde Nélida brilha intensamente e única ao lado de Clarice Lispector, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Rachel Jardim, Maria Alice Barroso, Marly de Oliveira, Maura Lopes Cançado, Astrid Cabral, Cecília Prada, Anna Maria Martins, Dirce de Assis Cavalcanti, Ana Maria Machado, Marina Colasanti, Olga Savary, Stella Leonardos, Yeda Prates Bernis, Maria Carpi, Renata Pallottini, Lina Tâmega Peixoto, Lourdes Sarmento... Universos femininos que a cada dia ampliam o olhar sobre o tempo e sobre tudo que coexiste além do tempo.

A admiração que reservo à Nélida Piñon há décadas, irá correr o mar, o imenso oceano das musas de Camões, para além de cem mil anos, séculos, milênios a fio, com o sol a pino, a levar o meu veleiro ao seu coração! 




*Diego Mendes Sousa é poeta piauiense. Fã da Nélida Pinõn, com lucidez para mergulhar além dos enigmas da sua intrigante fábula narrativa.







FAGULHAS DA SABEDORIA DE NÉLIDA PIÑON
ESCOLHIDAS POR DIEGO MENDES SOUSA





NÉLIDA



A memória é frágil. Consulto suas fontes no afã de defender meus haveres. Confundo a coroa de louro com a de espinhos.

E quem será dono de mim? Eu, ou minhas lembranças, que funcionam como um legado paralelo ao meu ser? Uma matéria que mal domino e com a qual não conto quando mais dela necessito.

Em vista de tal assunto, ando à deriva. Evito advogar a favor da memória que simplesmente transcreve uma coleta de dados. E que sabe em que gaveta foi guardado o documento que o ministério público exige para salvar minha vida.

Esta memória, que às vezes me supre, também expulsa de mim quem sou. E age certa de eu contar com ela para cumprir mínimos requisitos, ou para afirmar, a quem seja, que meu passado merece ser narrado. Embora não saiba se esta mesma memória, quando se manifesta, expressa o ápice da minha vida. Mas de que vale eu armazenar alegrias e desgostos, simples escombros da existência? Não sei o que dizer.


VÍTIMAS DO TEMPO


Somos vítimas do tempo que nos espreita. A ele lhe cedemos a vida quando é chegada a hora. Neste imperceptível momento mal damo-nos conta de sermos bárbaros que desperdiçam a vida com joguetes e palavras vãs. Sem julgar oportuno entender nossa humanidade e o mundo por onde transitamos.

A vaidade é a matéria-prima que nos corrói. Usamos tampão para não ouvir o clamor do carrilhão do tempo a nos advertir de que a beleza fenece, assim como a arte.

Não somos sábios ao lidar com os anos. Damo-nos ao luxo de desperdiçá-los. De nos crermos donos deles, sem jamais pensar que eles fabricam a cada dia a nossa morte. Na verdade, somos uns insensatos.



O PAÍS QUE QUIS



Nasci no país que quis, no continente que ampara minha imaginação. Não teria escolhido o século XX para viver, mas me resta fruir, graças à fantasia, outras épocas que me atraem. Como os séculos IV, XII e XVI.

Contudo aponto como um crédito a meu favor o fato de ser filha da língua portuguesa. Eu não a trocaria por nenhuma outra, ainda que não domine seus meandros, e me oferte armadilhas para me testar. Ah, língua maldita que tem a excelência do sublime e a insídia do pecado! Mas eu a amo com a ufania e o desespero de quem cria nela.

Entre outros haveres, destaco a família, os amigos, os bichos que são irmãos. Dão-me tanto que me envergonho às vezes de lhes pedir sequer um copo de água da bica.

Também tive e tenho amores. Eles me nutriram de emoções e de sentimentos intensos. Cada segmento da vida incrementou minha fé em Deus, a fome de justiça. E finalmente a literatura é meu destino.



OS CACOS DO CORAÇÃO



Como juntar com os dedos e as fibras do coração esses cacos de vidro que, embora se rejeitem entre si, formam um mosaico de Ravello. Esta obra de arte cuja imperfeição se acentua quando observada de perto, mas que de longe constitui um conjunto inigualável. Aquela superfície cromática a despeito da passagem do tempo, capaz na sua aspereza de revelar a história que o artista quis imprimir ao seu mosaico.

E não é assim com certas verdades supostamente residentes no coração? São amargas, contundentes, mas podem ter a polpa da fruta colorida exposta no mercado da Boqueria, em Barcelona. O que estou a dizer? Por que comparar o que é incomparável? É que a superfície arenosa do mosaico não impediu a construção de uma arte soberba. Assim como as nossas idiossincrasias não impedem que nos manifestemos de forma a revelar um coração com certa doçura quando proclama que ama.

Acaso a vida tem caráter intransferível? Ou é certo que a seta, quando dispara do recanto escuro e fibroso do coração, termina por ferir o peito onde pretendia se alojar amorosamente? O que mais dizer sem avançar nos preceitos da vida?



FEITOS DE BARRO



Sei que não somos feitos apenas de barro e suor. Certamente não terminaremos em um sopro tênue.

Cruéis que somos, merecemos o fracasso. Nossos vis interesses sobrepujam aquilo de que a humanidade carece para sobreviver.

Acaso os passos que damos em direção ao progresso afirmam que nos dirigimos ao paraíso? E que a alma diz que acertamos?

Terá havido momentos na história em que se produziu uma réstia de luz e a perfeição se realizou?

Essa é a razão da minha nostalgia.



VIAJANTE A ESMO



Como viajante, adoto às vezes ar circunspeto. Forço que me levem a sério, pensem que sou uma mulher respeitosa, aberta à cultura. Não me julguem capaz de acusá-los de repente de haverem sido bárbaros no passado, e apenas recentemente se converteram em guardiões da civilização e do padrão monetário ditado por Bretton Woods.

Não sou uma intrusa, indiferente às delícias da predominante comida francesa, incapaz de conjeturar em que panela de barro ou de ferro, em que tipo de fogão, elétrico ou a lenha, pode determinado prato atingir o ponto perfeito de cocção.

Nem sempre sou bem-sucedida. Nestes intentos, arregimento forças, suporto provocações, mas não desisto. Caso me ponham à prova, como minha mãe o fazia com gosto e orgulho, perco. Sobretudo não aceito que me reprovem por ser oriunda do Brasil, um país que não consideram padrão ideal. Mas o que sabem eles de nós? Acaso têm presente que a nossa mestiçagem inaugurou uma maneira nova de enxergar a carne pigmentada do humano em todo o seu esplendor?

Mas o que fazer? Por onde siga, sou estrangeira. Deito as raízes dos meus hábitos na solidão do quarto do hotel. E quando contrario regras cosmopolitas, em desacordo com seus estatutos, estribada na história que em geral sei mais que eles, leitora que fui dos gregos e de todos os sucessores, de que eles carecem para melhor desfrutar das suas franquias culturais cristalizadas ao longo dos séculos.

E, por favor, não se esqueçam de que esta brasileira, que sou, devolve-lhes, ampliadas, as vozes pedagógicas das Américas.  




(Diego Mendes Sousa e Nélida Piñon)





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2 comentários

  1. Parabéns poeta Diego Mendes Sousa, brilhante ensaio. Sentimo-nos contemplados pela homenagem a esta notável escritora e imortal da ABL, Nélida Piñon. Viva!

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  2. Caro Natanael,

    Nélida Piñon merece todos os aplausos! Uma escritora de primeira grandeza e, sobretudo, uma humanista campesina e civilizada!

    Abraços,

    Diego Mendes Sousa

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