domingo, 11 de novembro de 2018


À LUZ DE UM SOL IMPURO, CONTO DE FREDERICO SPENCER*

Img: Recantodasletras.com.br



Ocupou a praça com seus soldados.

Havia uma estratégia nisto tudo; o porto e uma grande parte do comércio estava naquela área antiga da cidade. Havia também os jornais: o Diario de Pernambuco, o do Commercio e o Diario da Manhã. Também um coreto e um colégio estadual.

A praça se estendia por mais de quatro quarteirões, sitiada, disputava o espaço com o crescimento da cidade que já agonizava por mudanças urbanísticas. As árvores e o gramado ralo ofereciam um clima de festa para os pássaros. Os pombos, com seu caminhar solene, também faziam seu alvoroço; passara muitas tardes neste local, sempre acompanhado da mãe, enquanto a avó terminava os afazeres da casa.

Lembrou também das manhãs onde fazia este percurso com a professora de sua escola, que ficava numa transversal da Avenida do General Dantas Barreto – a rua de sua escola não existe mais, foi vencida pelo General, atendendo aos apelos do plano piloto da prefeitura para desafogar o trânsito da área. “Augusta” morreu e levou consigo as marcas da tabuada sobre a pedra negra arguida sobre o peso da palmatória.

Pouco a pouco traçava e delimitava os pontos de vigilância: colocava as sentinelas em seus postos. Pensara em ocupar o coreto e chamar a atenção de todos que passavam. Preferiu ficar quieto enquanto seus soldados se movimentavam para ocupar os postos sobre seu comando; inertes em suas posições aguardavam o ataque inimigo.

As horas se consumiam, havia no ar uma sensação de abafado. Os homens derretiam no suor daquelas horas. Parecia que no final da tarde os demônios tomavam conta do tempo. Pensou em São José e sua igreja mais à frente, havia se batizado lá e isto trazia-lhe um certo relaxamento.

Ouve barulhos – alguém se aproxima. É uma força-tarefa inimiga, há um confronto. Todo efetivo é utilizado. Uma batalha cruel, ganha depois de muita luta corporal. Em alguns momentos achava que toda aquela movimentação era realmente necessária, sentia prazer naquilo tudo e também um sentimento de dever cumprido.

Numa certa manhã acordou e viu todo seu efetivo nas ruas, os soldados agora haviam crescido de tamanho e se vestiam de verde-musgo. Ainda de pijama no terraço da casa não entendia como aquilo tudo havia acontecido: não estavam mais escondidos no mato. Invadiam as casas, roubavam os livros e levavam pessoas conhecidas. Havia caminhões e carros escuros e não sabia de suas existências.

Ouviu dizer que naquele dia seu pai não iria trabalhar; as escolas, os jornais, a loja da Ipam, não funcionariam, estava tudo fechado. Naquela tarde não poderia ir à praça Sérgio Loreto – avisou a mãe.

Correu para a caixa onde guardava seus soldados, ainda dormiam envolvidos no peso do chumbo, esperando suas ordens – entendeu que aquela guerra não era deles, deixou que o tempo os consumisse naquele sono estratégico.

*Do livro: O Olho do Rinoceronte, pág: 73






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