domingo, 27 de maio de 2018


O PEQUENO CONTO DE UM REINO, DE FREDERICO SPENCER


Capa: Divulgação
O olho do rinoceronte (contos)




Quatro reis

Um do Norte, as terras se estendiam até parte do leste da planície costeira, banhada pelo Atlântico; um do Sul e dois do Sudeste, que dividiam a parte mais rica daquele império.

O primeiro, tímido e servil destinava sua produção e seus guerreiros em troca da pele e dos ossos dos animais dourados que viviam nos campos minados dos outros reinos.

O do Sul, sonhava ser estrangeiro, vivia parado e quieto olhando suas fronteiras remontando uma nova língua para seu povo – distante e febril – dançava e queimava a carne de seus bichos em noites de lua cheia.

Os dois restantes comiam e bebiam, maquinavam elevar taxas, cortar créditos e decretar uma festa que durasse o ano inteiro. Por causa da pouca reserva de água em suas terras, embriagavam-se com um líquido escuro e viscoso que brotava do mar onde se formavam praias, cobertas por alvenaria e naves aquáticas – esperavam uma guerra. Vez em quando estranhos seres invadiam suas ruas, encobertos por nuvens de fumaça, alucinados cantavam e dançavam empunhando armas de fogo.

Os quatro reis não temiam a morte nem as cortes. Com as cartas nas mãos apostavam num mês de março, que sempre vinha com o ranço dos cajus misturados com aguardente. Naquele império todos dormiam cedo e sonhavam.

Esperavam a batida final para continuar o jogo.




*Do livro: O Olho do Rinoceronte, pág. 57




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Editores: Natanael Lima Jr, Frederico Spencer e José Luiz Mélo