domingo, 25 de março de 2018


A POESIA ORTOPÉDICA DE FERREIRA GULLAR



Por Frederico Spencer






Img: reprodução




Segundo Aristóteles: “poesia é a arte da imitação da realidade”. Então, segundo o filósofo, todo poeta imita, cria e fantasia a realidade baseado em objetos do seu cotidiano. Sendo assim, Fernando Pessoa joga ainda mais lenha nesta fogueira quando afirma: “todo poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é/dor/a dor que deveras sente”.

No caso da poética de Ferreira Gullar, penso eu, existe uma grande interseção entre o que é “real e fantasia” e a “realidade” extraída de seus poemas. Acho que Ferreira com sua poética busca aquilo que é a essência das coisas: tudo que é mais duro e elementar para transformar vida em poesia e assim, acontece nestes dois poemas que escolhi para exemplificação da “verdade” de Aristóteles. Para Gullar ossos são matéria para poema como também são para a vida de todos nós. Vamos à leitura para ver nosso esqueleto como aquilo que realmente somos, será?:


EXERCÍCIO DE RELAX*


Pé direito, meu velho, relaxa,
esquece a inflação,
quero contigo iniciar
esta lenta descida do sono...
Mergulha nele, perna
minha, até o joelho...assim...
e agora,
pé esquerdo,
você também, que nunca fez um gol na vida,
que só topadas deu,
adormece,
afrouxa esse feixe de tendões e ossos e te abre
à paz.
Joelhos meus, pensem
nos oitizeiros
da Avenida Silva Maia
e durmam,
e que as águas do sono subam pelos músculos da coxa
aductor longus, quadríceps femoris
e pelo fêmur
e pelo ânus
e pelo pênis
e me cinjam a cintura.
Deitado, já metade de mim desceu na sombra. A outra
metade
sofre ainda a crise do petróleo.
Relaxa abdômen, que está tudo sob controle, músculos
do peito e dos braços,
abandonem-se,
para que a paz escorra até a palma da mão:
a esquerda anônima, a direita
tão conhecida de mim quanto meu rosto
e que, como ele, mais disfarça
o que eu somos
o que eu sonos
mas que, dentre as hostes celestes, me reconheceria
pelo caralho?
Cala-te, boca,
silencia, maxilar arcaico,
apaga-te, arco-voltaico
do que o verso não diz.
E agora, tu, cabeça,
dura cabeça nordestina,
dorme,
dorme, revolta,
sociedade futura pátria igual,
poema que iluminaria a cidade,
dorme
onde me sonho
(caixa de flores)
E donde espio o mundo
por duas órbitas
e duas pálpebras
que finalmente
se fecham
sobre mim.

*Poema extraído do livro: “Barulhos”, pág. 10



RELEXÕES SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA*


A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também
como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura
ativa de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva
sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura
têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
e esvanecer-se
para deixar no pó da terra
o osso
o fóssil
futura
peça de museu
o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?

*Poema extraído do livro: “Em alguma parte Alguma”, pág. 31




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