domingo, 25 de fevereiro de 2018


OLHOS DA NOVELA, CONTO DE PAULO CALDAS*


Paulo Caldas
Foto: divulgação



No chão, vestígios de areia. A moça do balcão, com o controle remoto, tenta sintonizar o show pedido pela jovem, que, de pé, observa o ambiente.

- Consigo não, minha filha. Espere a menina da copa chegar, agora tô ocupada.

Sofá sujo, com um gato dormindo em cima, poltrona encardida e uma recepcionista incompetente.

Ave Maria, se a gente for fazer tudo que esse pessoal quer o serviço não anda. Essa mesmo nem bateu os pés no capacho e ainda tá com a roupa molhada.

Meu Deus, eu não reservo mais lugar nesse tipo de pousada. É bom pra aprender não ir atrás de coisa barata. Na parede sequer tem um quadro de Iemanjá... A cortina rota dá pra gente ver a sala do café: quatro mesas empenadas, tamboretes bambos, açucareiros de plástico, as toalhas desbotadas, cheias de remendos. Sei não.

Esse povo da capital quer pagar pouco e ter luxo. Essa aí é uma; as mexas mal pintadas, unhas descascadas, pés chatos numa sandália barata. Garanto que mora numa favela daquelas de lá, agora vem aqui botar banca.

Se a turma do banco souber que vim pra Pipa ficar num lugar assim, vai tirar muita onda com a minha cara. Que mico: não vou fazer nenhuma selfie aqui dentro.

Em cima dessa bichinha só tem mesmo o olho verde. Reparando bem, ela até parece com aquela menina da novela... Essa que tá ali na capa da revista que a patroa botou na mesinha de centro.


*Paulo Caldas é escritor pernambucano, graduado em economia e jornalismo. Caldas publicou dezenas de livros, alguns deles adotados em escolas. Atualmente ministra várias oficinas literárias.




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