domingo, 25 de fevereiro de 2018


NICANOR PARRA E A ANTIPOESIA



Por José Luiz Melo






Nicanor Parra
Foto: Divulgação




Para mim, poesia é a condição de despertar em si e em outros, a emoção, seja ela primitiva que vem das raízes do ser, seja ela refinada, uma paisagem, um perfume, uma obra de arte.

Assim, Nicanor Parra, apesar de se proclamar antipoeta, para mim, foi um poeta em sua quintessência e, durante 80 anos de produção literária, influenciou diversas gerações de escritores e movimentos de vanguarda. Entre seus admiradores estavam o romancista e compatriota Roberto Bolaño (1953-2003), além do poeta beat Allen Ginsberg (1926-1997).

Nascido no Chile no povoado de San Fabian de Alico, em 5 de setembro de 1914, faleceu em 23 de janeiro passado na cidade de Las Cruces, no litoral chileno, aos 103 anos; mesmo mês quando no Brasil perdemos um dos expoentes de nossas letras, o escritor Carlos Heitor Cony, longevo como ele, quase completos os 92 anos de idade.

Nicanor Parras foi irmão da celebrada cantora chilena Violeta Parra, e juntos investigaram a música folclórica, sobretudo a cueca, gênero dos rincões mais pobres do país.

A exemplo de outros autores que repudiam suas obras iniciais, Parra publicou em 1937 o seu primeiro livro, “Cancionero sem nome”, mas, apenas 17 anos depois lançou o que veio a ser considerada sua mais importante obra, “Poemas e antipoemas”.

“Pode-se dizer que o "antipoema" é subversivo, mas não militante, pois não toma partido ideológico, sendo, pelo contrário, um instrumento para fazer acusações contra as deformações das ideologias. O sistema antipoético inclui entre seus elementos: uma personagem anti-heroica que observa no interior das casas ou se desloca por locais públicos de espaços urbanos; o humor, a ironia, o sarcasmo, que permitem perceber o que está oculto. Sua entonação e sintaxe não obedecem a um modelo literário, prefere a linguagem prosaica, falada todos os dias e em todos os cantos. Tem uma construção fragmentada e apresenta uma dissonância que evoca montagem ou colagem.”

É de Parra a frase que marcou para sempre o perfil daqueles que se não prendem a ideologias: “A esquerda e a direita jamais serão vencidas. “

Por oportuno, cabe citar o grande cineasta José Padilha, que recentemente falando sobre seu último filme “7 dias em Entebbe”, no JC, disse: “Não diria que meus filmes são malvistos ou mal compreendidos. Mas reconheço que sofro de um mal que gera incompreensão: não tenho ideologia. Não sou marxista e não sou liberal. Por isto não pauto o conteúdo ou a estética de meu trabalho de um jeito ou de outro. Em “Ônibus 174”, o personagem principal era um excluído. A esquerda adorou, a direita odiou. No Tropa de Elite, era inimigo do excluído. A esquerda odiou, a direita adorou”.

A exemplo do imortal  poeta recifense, Joaquim Cardozo, que foi engenheiro e calculista, Nicanor Parra também teve uma irresistível vocação pelas ciências exatas, tendo se formado em física e matemática pela Universidade do Chile, onde posteriormente foi professor.

Incluso um único poema de mesmo nome, seu livro “Manifesto”, de 1963, deixa claro qual sua intenção com a poesia: “Nós repudiamos/ a poesia de capa e espada/ a poesia de chapéu enorme/ Propiciamos em troca/ a poesia de olho nu/ a poesia a peito descoberto/a poesia a cabeça desnuda.

Parra ainda não teve seus poemas publicados no Brasil. Para reparar esta lacuna a editora 34 planeja lançar uma antologia inédita, composta por 60 poemas do autor escritos entre 1954 e 1972.




DOIS POEMAS DE NICANOR PARRA




O HOMEM IMAGINÁRIO*

O Homem imaginário
vive numa mansão imaginária
rodeada de árvores imaginárias
à margem de um rio imaginário
Dos muros que são imaginários
pendem antigos quadros imaginários
irreparáveis rachaduras imaginárias
que representam feitos imaginários
ocorridos em mundos imaginários
em lugares e tempos imaginários.
Todas as tardes imaginárias
sobe as escadas imaginárias
e se debruça na varanda imaginável
olhando a paisagem imaginável
que consiste num vale imaginário
circundado de colinas imaginárias.
Sombras imaginárias
vêm pelo caminho imaginário
entoando canções imaginárias
à morte do sol imaginário.
E nas noites de lua imaginária
sonha com a mulher imaginária
que o brindou com amor imaginário
volta a sentir essa mesma dor
esse mesmo prazer imaginário
e volta a palpitar
o coração do homem imaginário.


A MONTANHA RUSSA

Durante meio século
A poesia foi
O paraíso do bobo solene
Até que cheguei eu
E me instalei
Com minha
montanha russa
Subam, se quiserem

Claro que eu não me responsabilizo
se descerem
Botando sangue pela boca e pelo
nariz.

*Traduções de Carlos Machado




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