domingo, 25 de fevereiro de 2018


A NOVA ESTÉTICA APÓS OS ANOS DE CHUMBO



Por Frederico Spencer




Ignácio de Loyola
Foto: divulgação




Ignácio de Loyola Brandão é autor de doze livros, entre romances, contos e infantojuvenis. Sua carreira consagra-se, em meados da década de 1970, como uma das principais vozes da geração literária que estreia depois do golpe militar de 1964. Com “Zero”, romance de cunho político proibido pela censura, obtém o reconhecimento da crítica, consolidando-se como um dos principais representantes de um grupo de novos autores que, apesar da repressão política, renova a literatura nacional. Vencedor de vários prêmios como: Prêmio Jabuti (2008), Machado de Assis (2016), Troféu APCA (1975).


A ANÃ PRÉ-FABRICADA E SEU PAI, O AMBICIOSO MARRETADOR* (CONTO)


Era uma vez uma anã pré-fabricada. Tinha cinquenta centímetros de altura. Os pais eram pessoas normais. A anã era anã porque desde pequena o pai batia com a marreta na cabeça dela. Ele batia, e dizia: “Diminua, filhinha”. O sonho do pai era ter uma filha que trabalhasse no circo. E se ele conseguisse uma anã, o circo aceitaria.

Assim, a menina não cresceu. Tinha as pernas tortas, a cabeça plana como mesa, os olhos esbugalhados: um globo, com as marretadas, chegara

a sair. E deste modo o olho andava pendurado pelos nervos. Com o olho caído, a menina enxergava o chão – e enxergava bem. Por isso, nunca deu topadas.

A menina diminuiu, entrou para a escola, se diplomou. E o pai, esperando que o circo viesse para a cidade. A anã teve poucos namorados em sua vida. Os moços da cidade não gostavam de sua cabeça plana como mesa. Um dos namorados foi um mudo; o outro, um cego.

Com o passar do tempo, o pai ia ensinando à filha anã os truques do circo: andar na corda bamba, atirar facas, equilibrar pratos na ponta de varas, equilibrar bolas, andar sobre roletes, fazer exercícios na barra, pular através de um arco de fogo, cair ao chão (fazendo graça) sem se machucar, ficar de pé no dorso de cavalos.

De vez em quando, o pai emprestava a filha ao padre, por causa da quermesse. Ela substituía o coelho nos jogos de sorteio. Havia uma porção de casinhas dispostas em círculo. Cada casinha tinha um número. A um sinal do quermesseiro, a menina corria e entrava na casinha. Quem tivesse aquele número ganhava a prenda. A anã não gostava da quermesse porque se cansava muito e também porque no dia seguinte ficava triste, com o pessoal que tinha perdido. Eles a seguiam pela rua, gritando: “Aí, baixinha..., por que não entrou no meu número?”

Um dia, o circo chegou à cidade, com lona colorida, um elefante inteirinho rosa, uma onça-pintada, palhaços, cartazes e uma trapezista gorda que vivia caindo na rede. O pai mandou fazer para a anã um vestido de cetim vermelho, com cinto verde. Comprou um sapato preto e meias três-quartos. Levou a filha ao circo. Ela mostrou tudo que sabia, mas o diretor disse que faziam aquilo: andavam no arame, na corda bamba, equilibravam coisas, pulavam através de arcos de fogo, andavam no dorso de cavalos. Só havia uma vaga, mas esta ele não queria dar para a menina, porque estava achando a anã muito bonitinha. Mas o pai insistiu e a anã também. Ela estava cansada da vida da cidadezinha, onde o povo só via televisão o tempo inteiro. E o dono do circo disse que o lugar era dela: a anã seria comida pelo leão, porque andava uma falta de carne tremenda. E, assim, no dia seguinte, às seis horas, a menina tomou banho, passou perfume Royal Briar, jantou, colocou seu vestido vermelho, de cinto verde, uma rosa na cabeça e partiu contente para o emprego.

*Extraído do livro: Melhores Contos de Ignácio de Loyola Brandão, pág. 231




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