domingo, 10 de julho de 2016


OS PIRATAS – TOMO V



Os piratas: José Luiz de Almeida Melo, Janice Japiassu,
Montez Magno, Odile Cantinho e Paulo Gustavo




HISTÓRIA SUI-GÊNERIS*
Jose Luiz de Almeida Melo

Um dia, eu ia bêbado e ensimesmado
pelas ruas de uma cidade estreita,
eu ia estreito e de coração estreito
a mal formular uma ventura,
quando, um cadáver viajante,
esquálido e parecendo um fantasma
de um dos contos de Edgar Poe,
vendeu-me um botão, um botão,
um incasual botão,
redondo, parecendo uma lua cheia,
quatro olhos, quatro bocas, quatro orelhas,
a mangar de todo o mundo que passava.
Como o meu paletó, ocasionalmente,
nenhum botão tinha, casas vazias,
eu enchi uma casa de botão
e, hoje quando olho,
anêmico, pálido em meu peito,
vejo igualzinho meu retrato:
pernas presas, braços amarrados
e o pescoço enforcado a vida inteira.

*do livro Proibições e impedimentos, Edições Pirata, 1981.



A VERDADE E SUA SOMBRA
Janice Japiassu

A verdade é como uma flor
Ou como um fruto maduro
Povoado de sementes

É simples e natural
Clara, fecunda, viçosa
Alimenta a vida
E é muito cheirosa
E, para seus amantes,
Prazerosa

A mentira é obscura
Gritante, repetitiva
E é também multimídia
Cheia de artefatos
De intrigas
Palavrosa
Redundante
Sem clareza
Só se constrói nos vazios
E se alimenta de medos
Jamais perceberá a beleza
De um arabesco
Ou de um algarismo
Igual a si mesmo
Ou do riso
Quando é preciso
Ou do sexo
Sem ser explícito


OS GIRASSÓIS DE VAN GOGH
Montez Magno

O peso do sentir, a glória de viver,
a dupla mão percorrida
pelos campos contemplados
presos em molduras de madeira
os girassóis de Van Gogh
à venda em qualquer mercado.

À espera do vento em breve hora
dobrar os lírios brancos tardios,
anúncio e perda da forma
desgaste do musgo nas hastes
no entardecer longo e vazio.

Que ramo escolhe a flor no dia-a-dia?
Por onde anda o cheiro do seu pólen,
se vai além da sua medida,
ou se percorre a dimensão da sombra,
apenas um círculo que acende
o amarelo tingido em cada flor.


AXIOMA
Odile Cantinho

Sou a semente que se biparte
E se estufa
E cresce púbere para o devir
Sou a água que alimenta o grão
E se transforma em veículo do
Dar-se
Sou o sol que luta para chegar
E sopra o morno calor do aconchego
Sou o sinal de todos os tempos
Sou o sonho
Sou o reflexo
O grito
A fúria
O abandono
Sou o redemoinho que tudo recomeça
E tenta a luta e sabe que é
Nada.


MÃE
Paulo Gustavo

Mãe – dicionário de afeto
E de serviços,
Jardim do Éden
E oceano íntimo.

Quando a noite sobrevém, surgem de ti
                                           [velhos caminhos.


Mãe – o primeiro vinho.



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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima