domingo, 17 de julho de 2016


ORAÇÕES PARA VAGALUMES – PARTE 3 (CONTO DE FERNANDO FARIAS)




Apresentamos ineditamente a última parte do excelente conto Orações para vagalumes do nosso colaborador Fernando Farias. Esperamos que vc tenha curtido este fantástico conto, apresentado aqui em três partes. Uma boa leitura a todos!



ORAÇÕES PARA VAGALUMES – Parte 3
Fernando Farias


                                      
     
  Img.: reprodução google



Os dias foram passando e os doentes anunciando livres das dores. Voltavam para casa com saúde. Poucos, os mais graves ainda ficavam. Eu orava e contava para as freiras que eu tinha curado aqueles miseráveis. E elas debochavam.

A madre chamou os médicos e enfermeiros. A situação estava grave. Era preciso adoecer as pessoas. Os doentes estavam curados e o hospital perderia as doações e até o governo ameaçava cortar o apoio financeiro. Culpou a equipe de médicos pelo desastre. Era preciso manter os doentes ativos.

Senti-me culpada. Eu tinha provocado aquele desastre? Pensei em dizer que eu tinha feito as curas, mas tive medo. Afinal sem as pessoas doentes fecham-se os hospitais.

Mas eu tinha falado demais. E algumas freiras acreditaram em meus poderes.

Naquela noite fui estuprada. Cabos de vassouras. Cerca de vinte freiras me surravam. Queriam o hospital cheio novamente. Disseram que eu atuava por força do demônio. Maldita hora que me aceitaram. Só quem podia curar era Jesus.

Fui levada para uma clínica que atendia mulheres vítimas da violência, desta vez para curar de minhas próprias feridas. Tia Benildes me apareceu revoltada. Reclamou de eu ter dito que fazia rezas. A cidade grande não acreditava nestas coisas das crenças do povo do interior, coisa de gente antiga. A partir de agora nada seria mais dito. Um segredo silencioso.

Acordei na madrugada, entendi que eu agora acreditava em rezas. Compreendi o poder. Não era um dom divino nem as orações ditas. Mas uma palavra de três silabas que ela tinha me ensinado, emitida mentalmente por três vezes, como um cântico, junto com a ideia força do bem e da cura. A ideia força de que o bem será feito. Ou o mal.

Eu até pensava que era ilusão de minha tia, quando ela dizia ser a palavra perdida dos sacerdotes egípcios que as rezadeira guardam em segredo durante séculos.

Naquela madrugada fui até a janela e pela primeira vez pronunciei aquela palavra. Gritei a palavra perdida por três vezes com todo ódio. A terra tremeu. Vi milhares de vagalumes cobrindo o antigo hospital de caridade.

Acordei com a notícia nos corredores de que um grande incêndio atingiu o hospital, que dezenas de freiras morreram queimadas. E as plantas carnívoras.

Ainda levei um mês para sair da clínica. Agora vestida de enfermeira. Passei a me apresentar para as pessoas como a enfermeira que escapou do incêndio do hospital das pobres caridosas irmãs religiosas.

Passei dez anos sem ver minha tia, trabalhava entre os enfermos e vendo vagalumes. Sem cobrar nada. Sempre ficando desempregada por falta de doentes e hospitais fechados para revolta dos médicos.

Até que numa noite tia Benildes voltou. Estava num corpo de criança, parecia um anjinho de procissão. Pediu-me para voltar para a casa do interior, cuidar da família e da lavoura, deixar de rezar. Minha missão estava terminada.

Ainda tento me lembrar qual era a palavra perdida para dizer a vocês. Mas esqueci. Agora cuido de galinhas e falo com as almas das árvores.  E não é que parece que os homens foram à Lua mesmo?


fim



Um comentário:

  1. No texto da oração para vagalumes,parte 3, fica nítida a visão de poder de cura para uma única pessoas. Mas na terra, DEUS deixou outros para também cumprir essa missão. A incompreensão da ação de cura, fez uma freira sofrer por fazer Bem aos enfermos.

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    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima