domingo, 12 de junho de 2016


OS PIRATAS – TOMO II


Os piratas: Vernaide Wanderlei, Domingos Alexandre,
Eugênia Menezes, Ângelo Monteiro e Esman Dias



Dando sequência a divulgação dos poetas que participaram do movimento editorial da Edições Pirata, o DCP traz nesta edição a poesia de Vernaide Wanderlei, Domingos Alexandre, Eugênia Menezes, Ângelo Monteiro e Esman Dias. CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA.



MUNDO REAL*
Vernaide Wanderley

Gosto desta casa
mais que daquela
quando criança

Gosto dos adultos mofados
dos móveis quebrados
dos quadros sem vida
da desarrumação das crianças
de todos os cantos
com pó e teias

Aquela outra casa
tem tudo de vida
da criança que fui

os duendes e fadas
os banhos de chuva
o cálice de vinho Celeste
a peia bem dada
o medo do bicho papão

Gosto muito mais
desta casa

*Do livro Tatuagem, Edições Pirata, 1982


PASSAGEM
Domingos Alexandre

Constelações anônimas
saúdam lá do alto
esse pobre mortal
que caminha de bolsos vazios
pelos trigais alheios
e sustenta em seus ombros
o peso dos anos
que passaram rápido
como segundos.
Por detrás de uma nuvem
a lua me acena
com a doce esperança
de outros mundos.


OFICINA
Eugênia Menezes

A luz incandesceu o verde das mangas
e amaciou o aço das espadas
para o corte das margens.
Pelas frestas das lombadas pousam réstias
sobre as folhas coloridas pelo mago,
unidas pelo visgo das resinas da serra
que joga pequenas plumas brancas
sobre os óculos de Miguilim.
No brinquedo de roda,
mãos se conjugam no laço de amor
formando feixes enfeitados de alegria
pelo toque das espáduas e espátulas.
Fardo de arte e fé,
embarcado pelos estivadores suados
a caminho da liberdade.


DISCURSO SOBRE O VAZIO
Ângelo Monteiro

Dura necessidade
de invocar os objetos,
como se dependêssemos
deles para existir.

Como se o seu vazio
fosse menor que o nosso:
nós que usamos palavras
por medo do silêncio.


ACTA EST FABULA
Esman Dias (1937 - 2015)

  
A Domingos Alexandre


Morre o poeta.
Morre, com ele, toda a luz do mundo:
o espaço do seu rosto, o mar profundo,
a aurora e um pôr-do-sol escandaloso.

Morre o poeta e morre o Ocidente.
E o Oriente. E os pontos cardeais.
Morrem as estrelas. Morre o firmamento.
Morrem as sombras do pântano e o arvoredo,
todos os santos, todos os escribas,
os dias da semana, a quarta-feira.

E o próprio tempo, imóvel, que agoniza:
foi-se o olhar que no relógio via
a marcha, alegre e triste, dos ponteiros.

Morre o poeta.
Morre a alegria.
Morre tudo o que flui: morre a poesia.

Morre o poeta.
E morre o mundo inteiro.



2 comentários:

  1. Maravilhosos todos os poemas. Parabéns, queridos. Continuem assim. Abraço em cada um!

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  2. Maravilhosos todos os poemas. Parabéns, queridos. Continuem assim. Abraço em cada um!

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