domingo, 1 de maio de 2016


A SENHORA DO SEGREDO (CONTO DE PAULO CALDAS)



Paulo Caldas/Foto: reprodução


Oculto pela cortina, encostado na parede da cabine, observa lá embaixo, no set de gravação, duas moças portando livros e cadernos.

Quem são aquelas duas? Concluintes de um desses cursos de mulher: Psicologia, ou Nutrição, eu sei lá. E o que querem; como entraram? A de calça boca sino é irmã do operador de áudio, elas desejam você paraninfo da turma.  Ah, veja de quanto precisa, a de minissaia é um broto encantador, quero falar com ela.

O susto de se vê diante do ídolo e a surpresa de ser convidada para assistir ao ensaio, deixou Malena imóvel que nem uma estátua. A partir de então, a conversa fluiu. Na intimidade do camarim, ambiente atapetado, decorado com flores naturais, cortinas de cetim, iluminação indireta, às carícias consentidas a levaram ao limbo de amor.          

Refeitos da sofreguidão, ele inicia o diálogo. Qual o seu sonho de futuro, meu amor? Trabalhar, ter uma família feliz, uma aposentadoria serena, repetir esses momentos nas vezes que você vier aqui e dois ingressos grátis. Muito pouco para quem perdera a virgindade.

E assim foi feito. A cada show na cidade, além da liturgia do primeiro encontro, Malena e Ana Clara, a cúmplice do segredo, recebiam convites para os camarotes.

Quando da festa dos vinte anos de carreira do cantor, mesmo casada e mãe de três filhos, mantiveram o ritual do amor maduro. Porém, Ana Clara, em nome da amizade, não resistiu e cedeu à curiosidade: quando vocês se amam, o que ele faz com a perna mecânica? Sempre esperei essa pergunta, Ana; antes de se despir, vai ao banheiro e em seguida, na penumbra, sob os lençóis, pede que eu deite ao seu lado. Então você nunca viu? Não.



0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima