domingo, 6 de março de 2016


MIOLO DE POTE (Alexandre Furtado)







                                     
Dos vazios, a memória pesada...


por Alexandre Furtado*



O passado nunca está morto. Nem sequer é passado. - WILLIAM FAULKNER







      Fôlego, de Rafael Mendes, traduz, entre outros, o drama do personagem Mateus, como antiga metáfora: a de retornar para compreender. Então, ele assim o faz, não como Filho Pródigo, ou como Juan Preciado à Camala (Pedro Páramo de Juan Rulfo), ou mesmo às madeleines proustianas ao chá, mas, na verdade, a si próprio, ao seu passado, à origem familiar – repleta de dúvidas, problemas e tristes lembranças. Longe de modelos como os de Galsworthy (The Forsyte Saga), Mann (Os Bunddenbrooks) ou Roger Martin du Gard (Les Thibault), a família desenhada por Rafael é simples, sem adornos, composta por gente comum, uma família brasileira desmembrada, de pouco brilho ou qualquer estatura.

      Penso, por isso, na epígrafe do livro – “Elástico é o tempo de que dispomos cada dia; as paixões que sentimos o dilatam, as que inspiram o encurtam e o hábito o enche.” - como algo que anunciasse certo fôlego para (re)fazer caminhos. Mateus, por isso, se vê revisitando a infância, tendo que lidar com as idiossincrasias da mãe (Cecília), que a tudo suportava à custa da religião, o ambiente repressor, o comportamento “rebelde” de sua irmã – Manuela, sua avó levemente intrusa, da onipresença da igreja na relação familiar, e de Jaime, o pai, homem rude e emudecido.

Sentia dó de meu pai. Ele andava cabisbaixo, vestia o macacão imundo, carregava a caixa de ferramentas pesada. Dizia frases sem sentido, não lia sequer uma nota de jornal, não tinha opinião alguma sobre as coisas que aconteciam no mundo. Vê-lo assim me dava pena. (p. 48)

      O manejo narrativo é, sem dúvida, um dos méritos do livro de Rafael, por levar o leitor a pensar acerca dos alcances do tempo, das linhas que tecem a trama da memória, em duvidar se Mateus realmente (ou cada um de nós em nossas vidas) poderá lidar com o presente, suportá-lo, sabendo que o mesmo possui raízes profundas, espinhosas – ainda, por mais penoso que seja imaginar, como terá o mesmo que tratar do vínculo com sua mãe mais especificamente, com seu pai?

      Ser capaz de incorporar tais coisas conscientemente - vicissitudes e defeitos, de ultrapassar o sentimento de raiva e decepção é tarefa enorme, sobretudo quando existe uma perda definitiva e uma espécie de fuga de si. 

Há muita coisa sobre a morte de meu pai que gostaria de esclarecer: o que ele realmente planejava quando me convidou para lanchar, naquele domingo? Quantas cervejas tomou depois que chegou ao apartamento? Será que creditou alguma parcela de culpa por algo que eu disse ou não disse? Por que motivo mudou de ideia e acabou com todos os planos que falou que faria a partir do dia seguinte? Será que o que fez foi um ato intempestivo, de que talvez se arrependesse caso o encontrassem a tempo? Por que escolheu usar uma corda e não qualquer outra maneira para findar com a própria vida? (p. 62)

      Um tom freudiano paira minha leitura, possivelmente pelo vínculo – tristeza e voz, por uma culpa reservada do protagonista por ter saído dali ... Lembro, em certa medida, e, logo, guardadas as proporções, de figuras de análogo semblante atormentado: Hamlet, Heathcliff, Raskolnikov, Julien Sorel, Emma Bovary, Bentinho e Dorian Grey, cada qual com seus motivos, suas razões a lamentar ou se revoltar. Mateus encarna, ao meu ver, a angústia humana - de como entender a vida senão passando pelas dores? Como entender a si, senão mergulhando na própria história?

       Outro fator que me conduz aos alcances da Psicanálise – agora enquanto lugar de referências, é a construção de um tempo interno, subjetivo, aquele que surge em processo, geralmente, presente entre o que se perde e o que se acha, entre o que não se sabe e se enuncia. Pois, no caso do protagonista, a morte do pai lhe põe em contato com outras mortes: sua casa simples, a imagem da goiabeira, o apego da mãe às coisas sem sentido, ou, ainda, a função de uma foto antiga.

      A certa altura da novela, percebe-se que a saída de Mateus desse ambiente, revela dúvidas: o missionário Jonas que se demora no quarto de Manuela, os telefonemas do pai, como fios partidos de uma realidade que se mostra absurdo.

Tomávamos o desjejum na manhã seguinte. Minha mãe ainda não havia cansado de censurar a Mana: ela devia se firmar na igreja, largar aqueles amigos, arrumar um emprego, encontrar um moço decente e começar a pensar em casamento. Minha mãe continuaria a falar muito mais se a Mana, de supetão e em voz alta, não a interrompesse:
“Eu gosto é de menina, mãe! A senhora pode orar à vontade que eu não vou mudar o meu gosto”

      Na dinâmica das personagens: muitas inabilidades. A figura da mãe, por exemplo, como aquela que supostamente ampararia as dores, parece não conseguir lidar com o real, antes mencionado. O que Manuela, a filha, traz, é bem mais que uma simples preferência, mas posto dessa forma, a negação de um modus vivendi, um posicionamento inadmissível aos preceitos cristãos. Funciona mais ou menos como a morte repentina do pai ou a saída de Mateus daquela casa, tudo o que discretamente perguntasse: E vocês já não vinham todos, de alguma maneira, morrendo antes? 

      Por último, convém registrar que, para quem conhece os meandros da criação, especificamente a literária, sabe ou desconfia que a figura do artífice das letras flerta  um pouco com a de Cassandra, sacerdotisa a quem Apolo concedeu o poder da profecia – mas sob a condição de ninguém acreditar. O escritor, portanto, dispõe de maneiras para edificar realidade, pensar e “suspender” verdades, deitadas aos olhos dos leitores disfarçadamente. Sua tarefa é a de, tão somente, traduzir a vida pela representação, ou representá-la de maneira mais real. A partir do que é lido, cabe a cada um pensar, na condição de ser vivente, e, quem sabe, instaurar beleza diante do trágico, que - nos impõe quase sempre uma respiração, uma espécie de fôlego.  







*Alexandre Furtado é Doutor em Teoria da Literatura - UFPE e professor do Departamento de Letras na UPE Mata Norte. Crítico e escritor, atualmente integra o GPL (Gabinete Português de Leitura PE) e o IAHGP - Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano.



2 comentários:

  1. Seu mergulho textual dividido conosco não somente nos instiga a buscar a leitura do Livro mas principalmente a criar coragem para irmos de encontro ao nosso Matheus! Lerei o livro! Parabéns pela coluna Alexandre Furtado e parabéns pela iniciativa do Domingo com Poesia em te receber! Ganhamos todos! Avante!

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  2. Muito enriquecedor o seu texto, Alexandre! Concordo com Lívio Meireles, quanto ao irmos de encontro ao nosso Mateus. Uma frase no seu texto que me tocou muito foi: "de como entender a vida senão passando pelas dores?" Ainda tenho muitos livros adquiridos e que ainda não li. Mas com certeza quando terminar, o primeiro que lerei será este!

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima