domingo, 22 de novembro de 2015


A POESIA DE AUDÁLIO ALVES*




Poeta Audálio Alves
Foto: reprodução



CÂNTICO DUAL
         a Itérbio Homem

De Deus a mim,
nenhum segredo cabe:

Vivemos sempre a sós,
os dois, perenemente;
o pouco que aprendi
(da morte)
Deus o sabe.

O que meus dedos tocam,
agora,
Deus o sente:
Silêncio algum separa
meu canto de seu canto
que o sol nos une e abre
visão de outra visão.

A cor de minhas vestes
mudamos,
Deus o sabe:
A vida se consente
em Nós, presentemente,
e sendo a morte o fim
em minhas mãos não cabe.


O PÁSSARO

         a Ladislau Porto

Distingue-se do vento por ter asas
e cores impossíveis para o vento:
Voando pelo ar, vem livre e lento
unir-se à solidão de nossas casas.
Mas vento é, como disfarce e voo,
e bojo de canções arremessado
em plumas pelo céu, equilibrado,
 que a vida de ser leve transformou-o.
Ou vento já não é, mas é aurora,
que uma aurora nas plumas permanece:
Pelos ventos da tarde a tarde esquece
e canta claro e leve como outrora.
Em pouco voará, cantando a esmo
a incerteza do céu e de si mesmo.


CANTIGA DA TERRA INÚTIL

Vem a flor e vão-se os frutos
deslizando em terras planas,
como os dias vindos vão-se
do celeiros das semanas.
Ninguém que os colhas na cor
de seu destino diário,
que os tome e os multiplique
e lhes dê itinerário.
Daí que rochas contemplam-se
em seus diversos tamanhos,
e em derredor delas pastam
o silêncio e seus rebanhos.
Daí que fujo inconsútil
dessa para outra terra,
porque se toco em meu búzio,
— dele o canto sai inútil.



*Jornalista, poeta e advogado nasceu em Pesqueira no ano de 1930. Pertenceu a “Geração de 50”. Estreou na vida literária em 1954 com o livro de poemas “Caminhos do Silêncio”. O livro, “Canto Agrário”, foi considerado pela crítica especializada, como um dos melhores livros do ano de 1962. Foi membro da Academia Pernambucana de Letras. Segundo o poeta Joaquim Cardozo, “Os versos de Audálio Alves são dominados por um intimismo onde as palavras ganham um halo de júbilo e felicidade”.



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