domingo, 11 de outubro de 2015


DE CARA COM A POESIA DE MALUNGO

Três poemas de Malungo


Malungo / Foto: reprodução



O POVO DAS PONTES*
viadutos, arcos escuros
lama, rios fedorentos
mães de família invisíveis
barcos famintos
bolsões de miséria
sorrisos-crinças
aratus nos sinais
pratos de fome
gosto de maré
meninos sambudos
cidadãos-esperança
velhos pescadores do nada
embaixo das pontes
moradias suspensas
distantes dos nossos olhos

*Do livro ‘DIGITAIS’, primeiro livro 100% digital de Pernambuco

PRAIAS ACESAS*

estátuas de fogo,
altares flamejantes
fé táctil como rocha:

a cada onda fraturada
vejo Iemanjá
na pele da praia

igrejas ao coco
santificando
o peixe pescado

no andor,
santos cansados
do arrepio
do dia a dia

crianças profanas
invadem o templo
dos pássaros de sal

bolas de festa
colorindo as cruzes
e a alma do Cristo (...)


*Do livro ‘DIGITAIS’, primeiro livro 100% digital de Pernambuco


CARROCEIRO TRANSCENDENTAL

Lá em Peixinhos,
a arte mora na favela.
As bandas, o lixo no Beberibe:
é o Groove suburbano!
Goiamuns plugados
se esbarram nas vielas.
Todas as orelhas do mundo
viradas pra Recife.
Só aqui, não se ouve
o novo som pernambucano.

A luz do sol se reflete
nas águas sujas do rio
(nos zincos dos barracões).
Urubus dão rasantes
nas montanhas de lixo.
Nas carroças, ferro velho,
tralhas e papelões.
Carne de rato,
pés sujos nos telhados
da consciência.
Mocambos, almas encardidas
e balas perdidas sem clemência.

Geladeiras incandescentes
iluminam a tua cozinha.
Paredes transparentes
revelam as terceiras intenções.
Coloque o plugue e peça linha.
Viaje chutado; num burro sem rabo
rumo a outras dimensões.






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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima