domingo, 20 de setembro de 2015


POETA DO DOMINGO

A POESIA DE ESMAN DIAS

Esman Dias
(1937 – 2015)

POEMA DO DESPERTAR

Hoje, redivivo,
compartilho a mim: meu suor meu sangue,
minha fé no fim;
meu sonhar meu sonho,
meu gerir meu corpo,
meu ganir descalço,
meu crescer já morto.

Tudo o que retive
dos que me guardaram
foram minhas vinhas,
meus amores raros,
minha noite insone,
minha noite imune,
minha face exangue
que a meu Deus me une.

Hoje, redivivo,
sofro nova luz:
não que me atormente
- mas que me inaugura;
não que me incendeie
nem que me torture,
mas que distribua
sem que me conclua
nada em minhas veias.

Hoje, sou sem peias :
besta libertada
a trotar no verde
seu relincho claro.

II

Hoje já me sobram
naves e galeras.
O que dantes era
parte da quimera
já me sobra à porta;
pouco agora importa;
minha luta é minha.

Hoje já me vejo
com meus olhos novos
Hoje já me posso reconstituir
no suor fecundo
do que lavra a terra,
na visão que erra
sem saber errar.

III

Hoje me desperto
nesse olhar do homem,
nesse amar do homem,
no morrer do homem
- Hoje, redivivo,
sou palavra e fome.

IV

Hoje não relincho
por temor ao vento :
mais do que invento,
lúcido, descubro
(hoje existo em tudo).

V

Hoje me alimento
mais da minha fome:
donde flua o homem,
nasço e me refaço
- Hoje sou mais tempo
conjugado a espaço.

Pois já não me pesa
tudo o que me sofre:
hoje, sou mais forte:

tudo que circula
corpo e pensamento
revigora o tempo
de manter-me à brisa

se hoje não me pisam
com seus cascos ágeis
meus imaginários
sonhos de paisagem.

VI

Já senti o saltos
em pensar o meio.
Hoje, se receio
retornar ao muro,
sinto-me seguro.

Sinto-me maduro
para o meu comando:
seguirei uivando,
recriando estradas,

que hoje não sou nada
do que já me fora
mais que morte, amor,
mais que sombra, cor,
mais que luz, inverno:
hoje, redivivo
para sempre - eterno.


ACTA EST FABULA
 
A Domingos Alexandre

Morre o poeta.
Morre, com ele, toda a luz do mundo:
o espaço do seu rosto, o mar profundo,
a aurora e um pôr-do-sol escandaloso.

Morre o poeta e morre o Ocidente.
E o Oriente. E os pontos cardeais.
Morrem as estrelas. Morre o firmamento.
Morrem as sombras do pântano e o arvoredo,
todos os santos, todos os escribas,
os dias da semana, a quarta-feira.

E o próprio tempo, imóvel, que agoniza:
foi-se o olhar que no relógio via
a marcha, alegre e triste, dos ponteiros.

Morre o poeta.
Morre a alegria.
Morre tudo o que flui: morre a poesia.

Morre o poeta.
E morre o mundo inteiro.



2 comentários:

  1. Expoentes da “Geração 65”, grande poeta ESMAN DIAS o defino com sua poesia:
    Morre o poeta.
    Morre, com ele, toda a luz do mundo:
    o espaço do seu rosto, o mar profundo,
    a aurora e um pôr-do-sol escandaloso.

    Poeta Itaquitinguense Negreiros Neto

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  2. Conversar com Esman Dias... era como degustar uma taça de vinho mesmo que fosse num dia amargo dos anos de chumbo ... A serenidade antecedendo a fome dos nossos dias.

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Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima