domingo, 20 de setembro de 2015


AS MULHERES NA MÚSICA DE CHICO BUARQUE

publicado em obvious por Eli Boscatto*



Chico Buarque / Foto: Divulgação



Chico Buarque colocou na poesia das suas letras a mulher e o amor. A mulher humanizada, despida de estigmas e rótulos. Nas letras das suas músicas, Chico é um apaixonado pelas mulheres e por elas protestou com toda a delicadeza. A mulher comum elevada à categoria de deusa-musa inspirando seus versos dos mais doces aos mais picantes em saborosas canções. O amor, a malícia, o desencanto e sobretudo a coragem. As mulheres que caminham pelo mundo carregando uma força que acreditavam as civilizações antigas, concedida à elas pelo sexo e pela fertilidade. Afinal se a força da mulher não é física, estaria ela em seu útero, em seu coração, em sua mente?



Os encantos e as dores da alma feminina, um labirinto de sutilezas. O que deseja a mulher quando diz não mas quer dizer sim e quando diz sim mas quer dizer não? Ela não quer confundir o homem. Quer que ele perceba suas intenções, seus motivos, sempre acredita nessa capacidade de percepção do sexo oposto; se esquece que ele é racional.

Mas afinal que graça teria o mundo sem a emoção da fêmea? Um mundo só guiado pela estreiteza da razão? Chico captou como ninguém esse contraponto. As mulheres estão todas lá nas músicas de Chico, da prostituta à dona de casa, da menina delicada à mulher fatal. Todas intensas, sonhadoras, apaixonadas. E daquelas endurecidas pela crueza da luta cotidiana, ele tenta extrair em suas letras o que restou de sonho e inocência esquecido em algum recanto, onde adormece a mulher-menina.

Da mulher com seu destino traçado em Mulheres de Athenas, da dor da separação em Pedaço de Mim, das confissões de duas mulheres num triângulo amoroso na música O Meu Amor, da dona de casa que todo dia faz tudo sempre igual em Cotidiano. Na Geni odiada pela hipocrisia da cidade que quer destruí-la, sendo ela talvez a menos pecadora e quem sabe a mais pura.

A insinuação daquele grande segredo feminino nas músicas de Chico: “a mulher só se entrega de fato quando ama”. Olhando suas letras, não se sabe se ele canta melhor a mulher ou o amor, mas como separar uma coisa da outra? Aquele amor apaixonado da mulher pelo seu homem, onde a saudade não se esgota. Um refresco para o embate diário, onde em seu colo ele busca refúgio depois da batalha. O amor da mulher que quem sabe possa resgatar o homem-menino deixado no sótão das lembranças para dar lugar ao macho todo poderoso. O amor que não tem governo, não tem sentido, não tem escolha.

Teria Chico para compor suas músicas perscrutado, esquadrinhado a alma da mulher até descobrir cada desejo não dito? Nas entrelinhas das suas músicas elas parecem todas dotadas de um poder sutil, porém avassalador que decorre da sua força misteriosa. E de todas elas ele cantou a sensualidade e a malícia.
Nas músicas de Chico as mulheres são semelhantes na sua essência. Nem santas e nem demônios, apenas humanas.

*Eli Boscatto é poeta, formada em Ciências Políticas e Sociais e colunista de obvious



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