domingo, 9 de agosto de 2015


CONTO DO DOMINGO

Instantâneos (conto) de Paulo Rocha



Paulo Rocha é contista 
membro da ALJG


Eu entrego a máquina que contém os negativos ao atendente relapso, negligente, alheio, que revira gavetas antes de achar um bloqueto sujo, com duas partes impressas separadas por um serrilhado, onde ele escreve em letras bambas a data de entrega e a data de retirada.

– Queria ver o copião logo, digo. Com copião é mais caro, me responde de má vontade, a caneta suspensa como se suspendesse com ela o trabalho de merda que faz, o dia e o tempo. Não vai escapar tão fácil: O copião para eu escolher, eu espero, eu pago.

Meia hora depois estavam ali as fotos todas, minúsculas reproduções onde mal se distinguiam as figuras, mas eu tinha acompanhado todo o processo fotográfico, a três, a nove, a quinze, a vinte-e-cinco e a trinta, faz duas cópias de cada.

– E estas outras, hem?, o sorriso jocoso, Posso fazer uma cópia para mim?, Não, não pode.

Pego as fotos em preto-e-branco e analiso uma a uma, não o contraste se está perfeito, a luz se está adequada, o tom se está “osso”, o corte se está bem enquadrado. O que me importa é se os olhos estão bem abertos, se o sorriso é franco e sincero, se a roupa caiu bem, se na penteadeira não há nada que denuncie o local onde foi tirada. Separo cada rosto em um envelope, a cada um junto uma carta, cuidando para não trocar carta e foto, vou aos Correios despachar, escrevo em letras grandes o nome da primeira destinatária:  Alaídes de Souza Muriel, Rua Desembargador Ramires Sampaio, 174, Planalto, RS.

Depois outra e mais outra, são bem umas quinze, faço todas com letras de imprensa em caneta preta, sabe-se lá se os carteiros são mesmo alfabetizados, o remetente deixo sempre em branco.
Volto assobiando, mas bem baixinho.


*********

Mãe.
Sei que há muito tempo não tem notícias minhas, mas espero que estejam todos bem, a senhora, o pai e meus queridos irmãos.

Só escrevi para dizer que estou bem, trabalhando em um escritório e ganhando meu dinheirinho, que não é muito, mas dá pra viver.

Estou mandando uma fotografia, e espero que vocês gostem e mandem um dia também uma foto daí, para eu saber como estão vocês depois de todo este tempo, embora agora eu não possa mandar endereço pois estou sendo transferida.

Sabe, me desculpe eu ter saído sem contar para ninguém, mas não tinha outro jeito depois que aquele outro fez o que fez comigo e me deixou e eu não podia mais ficar aí principalmente sabendo como papai é, a senhora sabe, ele era capaz de me matar, mesmo, ou me fazer vergonha na rua toda e é melhor assim embora eu chore toda noite de saudade da senhora e até daquele outro, que não merece e que me fez ficar longe de vocês.

Aqui é muito bom, nós temos alojamento, comida, e o trabalho não é de muito esforço, apesar de às vezes alguns clientes serem meio brutos, mas eles dizem aqui que são os ossos do ofício e que a gente não deve brigar, até porque senão perde o emprego, então eu sou muito boazinha e nunca tive confusão, e faço o meu trabalho todo dia com prazer.



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