domingo, 26 de julho de 2015


ENTREVISTA COM O PRESIDENTE DA UBE ALEXANDRE SANTOS*



“a literatura é o 'primo pobre', merecendo atenção infinitamente menor do que, por exemplo, o cinema ou, mesmo, música”.


Alexandre Santos/Foto: Divulgação



O presidente da UBE (PE) Alexandre Santos concede entrevista exclusiva ao DCP e fala sobre a literatura no estado e no país, a UBE, o Congresso Mundial de Engenheiros Escritores e sobre o seu mais recente livro.

Alexandre Santos é escritor, engenheiro civil pela UFPE, cumpriu os cursos de especialização em Transportes Urbanos e Trânsito na Universidade Federal do Ceará (UFCE) e de mestrado em Engenharia da Produção e em Gestão Pública para o Desenvolvimento do Nordeste na UFPE. Foi agraciado com a inclusão na Ordem do Mérito Literário ‘Jorge de Albuquerque Coelho’, Ordem do Mérito Capibaribe, no grau de Comendador, no quadro de agraciados com a Comenda ‘Padre João Ribeiro’, na Ordem do Mérito Manoel Antônio de Moraes Rego, no quadro de Membros Honoráveis do Colégio de Engenharia de Venezuela. Recebeu a Medalha do Sesquicentenário do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco e o Prêmio Vânia Souto Carvalho, instituído pela Academia Pernambucana de Letras para agraciar o melhor romance no concurso nacional de 2006, com o livro 'O moinho'.  É membro de diversas entidades, incluindo o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, Instituto Solidarista de Estudos Políticos e Sociais Zanoni Lira Lins e a Academia Brasileira de Autores Solidaristas. É editor-geral do informativo ‘A Voz do Escritor’, membro do Conselho Editorial da Revista Algomais, do Conselho Consultivo da Revista Nova Águia (Lisboa, Portugal) e do Conselho Editorial da Revista Archiépelago (Cidade do México, México). É presidente de entidades importantes como o Clube de Engenharia de Pernambuco, Associação Brasileira de Engenheiros Escritores e União Brasileira dos Escritores. É autor dos livros: Os Retirantes (1986), A Inevitável Primavera (1991), Teoria do Valor (1994), Curso Básico de Matemática Financeira(1995), Economia & Poder (1995), Solidarismo: O Brasil para Todos(1995), Curso Básico de Administração de Materiais (1996), Curso Básico de Avaliação Financeira dos Projetos de Investimento (1997), Subsidiariedade Econômica: A Opção Decisiva (1997), Em Debate (1997), Crise - O fim do ciclo liberal (1999), O Direito ao Trabalho Remunerado (1999), O Debate Continua (2000), A Administração de Pequenas Empresas em Tempos de Crise (2000), A face oculta do mercado (2001), G’Dausbbah (2005), O Moinho (2006), Maldição e fé (2011), Raízes (2011), entre outros.


DCP – O cenário atual no estado é animador para a área da literatura?

AS - Quando olhamos em volta e vemos a quantidade e a qualidade dos escritores que atuam nas terras brasileiras e, sobretudo, nas nordestinas e, especial, em Pernambuco - onde há um poeta, um cantador, uma agremiação literária em cada esquina -, superamos eventuais pessimismos e recobramos a esperança na arte literária como um dos principais elementos de animação e resistência cultural e, portanto, de transformação social e política da sociedade em nossa terra. Infelizmente, a quantidade, a qualidade e, sobretudo, a potencialidade da produção artística dos escritores que atuam no Estado não são correspondidas pelo apoio governamental na intensidade desejável. Há, de fato, algum avanço no setor, mas, ainda, há muito por fazer. De qualquer forma, mesmo com as dificuldades do setor, além de o movimento das editoras locais apontar grande produção literária, observa-se a consolidação e o surgimento de casas que prestigiam a apresentação de poesia como atração artística e, ainda, o viço crescente do calendário das festas, festivais, encontros e congressos literários realizados no Estado.

DCP – A UBE como casa que congrega o autor brasileiro, quais as perspectivas e ações para os novos autores?

AS - Embora seja uma agremiação de índole política, além de fazer a representação nacional dos escritores que atuam no Brasil, a UBE mantém uma intensa programação cultural, inclusive como forma de estimular o gosto pela arte de escrever. Nesta perspectiva, a UBE vem desenvolvendo um conjunto de programas literários, que percorre vários gêneros e temáticas literárias para criar ambiente propício à participação de escritores de diversos matizes e preferências. Assim, neste começo de temporada, além de festejar a 500ª'sessão do programa 'Quarta às Quatro' (o mais antigo em funcionamento nas Américas), a UBE vai investir em outros programas - como 'A temática do amor', por exemplo, que melhor se adequa aos escritores e leitores das coisas do coração; 'O fantástico na literatura' para amantes de obras fantásticas, maravilhosas e estranhas; 'Clube do Livro', que aprecia livros de autores locais; 'Seminário de Historiologia', 'Cordel na UBE', 'A arte de narrar' e todos os outros - e intensificar o programa de homenagens a personalidades e localidades, de modo a lançar mensagens sobre comportamentos que julgamos exemplares à sociedade. Com portfólio tão amplo de possibilidades, a UBE está apta a acolher novos autores não só com a orientação para o affair literário, mas, também, com ambiência apropriada para a apresentação da arte que o anima.

DCP – Qual o balanço que você faz para a literatura no cenário nacional?

AS - Sou um otimista por natureza e, confiante na capacidade criativa dos autores brasileiros, concentro a minha preocupação na democratização dos incentivos culturais ao setor. Nunca é demais lembrar que, das linguagens artísticas, a literatura é o 'primo pobre', merecendo atenção infinitamente menor do que, por exemplo, o cinema ou, mesmo, música. Além disso, reproduzindo aquilo que se observa em outros aspectos, em processo extremamente facilitado pelo atual mecanismo de incentivo cultural, há uma concentração excessiva dos estímulos culturais na região sudeste, beneficiando, basicamente, artistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Nesta perspectiva, a mudança na Lei de Incentivo Cultural, substituindo o mecenato por um sistema de fundo cultural, é essencial para ampliar a participação de autores de outras regiões no panorama artístico literário do País. De qualquer forma, vemos, com orgulho, o progressivo reconhecimento mundial da literatura produzida no Pais, insinuando que é mais que chegada a hora de um autor brasileiro ser premiado com o Nobel de Literatura.

DCP – O que representa o Congresso Mundial de Engenheiros Escritores para Pernambuco?

AS - Ao realizar o Congresso Mundial de Engenheiros Escritores em Pernambuco, dando palco para a apresentação de escritores com a dimensão artística e literária dos engenheiros Ernesto Melo e Castro, Marc Meyers, Carlos Verjar, Evando Mirra, Fernando Sandronni e outros, a Associação Brasileira de Engenheiros Escritores (ABRAEE) coloca o Estado no foco das atenções do mundo da literatura. A escolha do local de realização do Congresso - o tricentenário Forte das Cinco Pontas, no bairro de São José, no Recife - obedeceu a rigoroso critério de modo a concentrar as atividades literárias do evento em construção marcante para a engenharia do século XVII, quando Pernambuco situava-se no centro das decisões econômicas mundiais. Agora, pelas mãos da literatura, o Estado volta ao centro das atenções do seguimento.

DCP – O escritor e o engenheiro, como estas duas forças formam a personalidade de Alexandre Santos?

AS - Estou convencido que, independentemente da formação profissional, dentro de cada pessoa, mora um artista. Nas horas de lazer, uns cantam, outros tocam algum instrumento musical, outros gostam de cozinhar, outros pintam, outros gostam de ler. Eu gosto de música e literatura. Infelizmente, não consigo cantar ou tocar qualquer instrumento. Em compensação, leio e escrevo. E leio e escrevo muito. Até algum tempo, eu pensava que um Alexandre, o engenheiro, manuseasse números e o outro Alexandre, o escritor, manuseasse letras. Hoje, se que ambos lidam com números e letras. O engenheiro procura impregnar a sua ação com a sensibilidade associada à arte literária e o escritor vem impregnando a sua obra com variações da estética observada na obra de Deus. Assim, sou, ao mesmo tempo, um engenheiro-escritor - um profissional técnico, que se deixa embalar pela arte - e um escritor-engenheiro - um artista da palavra, que usa a lógica para ordenar ideias e contamina a beleza com novos padrões, contribuindo para a definição de novos padrões estéticos.

DCP – Fale um pouco sobre a sua mais recente obra “O livro dos livros”?

AS - O poder é o tema central da minha obra literária. O romance 'O livro dos livros', que tem tudo para suscitar tanta polêmica quanto 'Maldição e fé', fala da construção de uma Igreja como instrumento de controle social e peça fundamental de um plano para completo domínio econômico, social e político da sociedade. É nesta ambiência que surge 'O livro dos livros' - uma coletânea de ensaios morais e de novelas, rigorosamente ajustada às esperanças das pessoas, capaz de, ao mesmo tempo, socorrê-las nos momentos de dificuldade, oferecendo-lhes segurança nos momentos de incerteza, esperança nos momentos de debilidade, conforto nos momentos de dor, perdão nos momentos de arrependimento, apontando-lhes a possibilidade de vida após a morte e, finalmente, talvez o mais importante, determinando um padrão ético e uma regra geral de comportamento (criando, assim, o modelo de controle social por ele desejado). É um livro que ainda vai dar muito que falar.


*Entrevista publicada em 09/04/2015


0 comentários:

Postar um comentário

  • a literatura em sua rede

    ano IV


Editores: Frederico Spencer, Natanael Lima Jr e Thiago Lima